Título: Teoria geral do turismo.
Autor: Marília Gomes dos Reis Ansarah.
Este material foi adaptado pelo Laboratório de
Acessibilidade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em conformidade
com a Lei 9.610 de 19/02/1998, não podendo ser reproduzido, modificado e
utilizado com fins comerciais.
Adaptado por: Alice.
Imagens
descritas por: Alice.
Revisado por: Maria Aparecida.
Adaptado em: novembro de 2025.
Padrão vigente a partir de março de 2022.
Referência: ANSARAH, Marília Gomes dos Reis. Teoria geral do turismo: introdução. In:
ANSARAH, Marília Gomes dos Reis. Turismo: como aprender como ensinar, II. 3.
ed. São Paulo: SENAC, 2004. p. 11-36.
P.
11
INTRODUÇÃO
O homem vem realizando viagens, por razões
diferentes, para atender à satisfação das necessidades vitais, como comércio,
esportes, eventos, etc. As características peculiares do mundo em que vivemos —
facilidades, segurança e rapidez nos transportes e novas tecnologias — têm
possibilitado o deslocamento crescente de turistas para vários destinos.
A atividade turística pode ser considerada um
"agrupamento de setores", existindo entre eles uma complementaridade
técnica. Tendo em conta sua heterogeneidade e complexidade, pode-se afirmar que
o turismo, como setor econômico, é um conceito difícil de definir de maneira
uniforme. Muito mais que um setor, é uma atividade que se estende de forma
direta por vários setores da economia, e, de forma indireta, por todos os
demais setores.
Na década de 1930, poucos sociólogos ou
economistas acertaram ao prognosticar a expansão que iria ter o turismo. A
expansão começaria na década de 1950, e ganhou força na década seguinte. Desde
então, o crescimento dessa atividade tem sido progressivo e vinculado aos
incrementos de renda dos habitantes dos países demandantes, ou os de maior
riqueza. Para os ofertantes, as consequências econômicas dessa atividade têm
sido uma autêntica alavanca de desenvolvimento.
É bastante provável que a atividade turística
esteja chegando a um certo "amadurecimento" devido ao número contínuo
e crescente de pessoas que viajam para paí-
P.
12
ses considerados de primeiro
mundo e que agora descobrem as riquezas e belezas dos países em
desenvolvimento. Para muitos desses países, o turismo está se tornando uma base
firme para o desenvolvimento.
Tudo isso indica que a atividade turística não
pode mais ser considerada um bem supérfluo; pelo contrário, cada vez mais se
agrega valor a essa atividade, considerada de primeira necessidade.
No setor de serviços de natureza turística,
dado seu caráter de prestação de serviços, a qualidade depende quase sempre da
especialização e motivação do capital humano do setor para satisfazer o
cliente, o que exige um processo de constante inovação.
A área de atuação do turismo abrange empresas
com atividades de várias naturezas, como hospedagem, transportes, agenciamento,
alimentação, entretenimento, eventos, etc. A principal função é a de
proporcionar a satisfação dos desejos e necessidades dos turistas, obtendo
lucro através da prestação de serviços, como qualquer atividade econômica. São
tarefas complexas, que exigem a atuação de profissionais especializados, com
conhecimento e formação na área — os bacharéis em turismo.
O enfoque deste trabalho é na educação no setor
turístico. Este capítulo aborda aspectos relevantes da teoria geral do turismo,
considerada sob a ótica de disciplina específica de cursos de graduação em
turismo. Nesse sentido, inicia-se pelas considerações básicas sobre esse tema,
apresentando os aspectos conceituais. Em seguida, analisa a disciplina no
ensino superior de turismo, enfocando o seu caráter multi
e interdisciplinar. Apresenta a classificação, a história e definições técnicas
de turismo. Analisa o produto, suas características e o mercado turístico
mediante a teoria de sistemas. No
final enfatiza a necessidade de maior profissionalismo e conhecimento
teórico-prático, apresenta a bibliografia recomendada e aborda a importância da
educação em turismo. Para concluir sugere a abordagem do estudo em turismo
dentro da visão de globalização e da pós-modernidade.
QUALIDADE E EDUCAÇÃO: UM DESAFIO PARA O SETOR TURÍSTICO
Para o desenvolvimento do turismo, no sentido
de se caracterizar como uma oferta de qualidade, faz-se necessária uma formação
profissional de qualidade. Na realidade, como o turismo é uma atividade de
utilização intensa de capital humano, só o ensino e consequentemente a formação
de mão-de-obra especializada pode-
P.
13
rão responder aos desafios que o
setor enfrenta e, em particular, às freqüentes
inovações tecnológicas que apontam claramente para as
"pluricompetências", que atualmente respondem às exigências da
competitividade.[nota
1]
É importante e necessário encontrar e
desenvolver uma tríplice formação profissional para as
atividades de turismo, principalmente "nas escolas, nos centros de
formação tecnológica e nas empresas". Entende-se que o sucesso do setor do
turismo dependerá:
•
da capacidade criativa dos profissionais;
•
da habilidade na introdução de novas
tecnologias;
•
do uso de novos processos e formas de
organização;
•
da capacidade de adaptação do profissional:
fator-chave do êxito para as empresas;
•
da busca constante de produtividade: o
principal objetivo e a única possibilidade de sobrevivência dos profissionais.
EDUCAÇÃO VERSUS FORMAÇÃO
A educação universitária em turismo, através do
estudo do conteúdo da disciplina teoria geral do turismo, enfoque desta
análise, deve proporcionar um conjunto de ferramentas direcionadas para a
interpretação e a evolução de novos conhecimentos, possibilitando ao
bacharelando desenvolver sua capacidade crítica.
Infelizmente não existe hoje a preocupação voltada
para a consciência crítica dos alunos, tampouco para o desenvolvimento do
pensamento crítico, mas sim do imediatismo profissional, da sua experiência
prática, tão requisitada pelo mercado de trabalho. Na elaboração de planos de
estudo, muitas vezes se esquece que a educação turística também é educação e,
por conseguinte, deve desenvolver no indivíduo um espírito voltado para o
aprendizado, para que ele seja criativamente funcional ao enfrentar sem traumas
as novas situações que se apresentam continuamente neste setor, tão mutante e
dinâmico.
Freqüentemente as
necessidades da indústria forçam o sistema educativo a direcionar a formação
acadêmica em desenvolver certas habilidades para aumentar a produtividade da
indústria.
P.14
A educação turística deve se preocupar com o
equilíbrio entre a educação e a formação em todos os níveis do processo
educativo. Para que haja esse equilíbrio, é necessária uma definição clara dos
níveis educação e formação.
A aprendizagem de um modo geral se dá a partir
de dois sistemas básicos:
No caso específico do turismo no Brasil, ambas as
formações são imprescindíveis, especialmente porque a matéria-prima são os
serviços, que dependem fundamentalmente do nível de qualificação da
mão-de-obra.
As universidades, enquanto instituições voltadas
para a educação, têm o compromisso de direcionar os estudos para:
O fomento à pesquisa em turismo no Brasil tem
sido questão irrelevante, enquanto em outras áreas é a peça fundamental de
inovação e desenvolvimento do setor. A realização da pesquisa turística requer
programa educativo coordenado entre as disciplinas do próprio curso, de outros
cursos da instituição, de outras instituições, nos âmbitos regional, nacional e
internacional, com a finalidade de tornar o sistema mais eficiente.
O controle das correntes turísticas, por meio
do método científico, permite-nos conhecer o número de turistas que entraram ou
saíram de um país em determinada época do ano, bem como seu perfil,
necessidades e desejos, a fim de adequar a oferta turística das destinações.
Permite, ainda, levantar dados sobre o mercado turístico, conhecer a
concorrência e os serviços aos turistas, fornecendo essas informações, após
cuidadosa análise e reflexão, aos empresários que desconhecem as preferências e
as próprias estruturas do mercado.
P.
15
CARÁTER MULTIDISCIPLINAR DA CIÊNCIA TURÍSTICA
Dado que a ciência turística tem amplas
relações com as outras ciências, algumas vezes os campos de estudo não estão
suficientemente definidos, e há certos problemas semânticos e algumas confusões
conceituais. Por outro lado, os conteúdos programáticos das disciplinas
relacionadas ao estudo do turismo, que compõem a estrutura curricular dos
cursos, devem conter atividades relacionadas ao turismo, como aspectos
econômicos, sociais, culturais, ambientais, políticos, tecnológicos, legais.
De acordo com Acerenza,
muitas vezes a conceituação do turismo tem gerado controvérsias, como conseqüência das múltiplas e variadas interpretações que
têm sido feitas dessa disciplina.[nota 2] Um dos motivos para essas diversas
interpretações pode decorrer de que, para algumas disciplinas, o turismo
constitui um campo particular de estudo, ou devido aos inúmeros pontos de vista
de certas correntes de pensamento que o explicam em função dos princípios
ideológicos e filosóficos que elas professam.
Segundo Rejowski,[nota 3]
o turismo, por ser um fenômeno de múltiplas facetas, desenvolve-se utilizando
métodos e técnicas de várias disciplinas:
•
Economia: muitas teorias econômicas vêm sendo
utilizadas no turismo, fornecendo marcos de referência para a análise das políticas
turísticas e ajudando a quantificar os efeitos produzidos pela presença de
visitantes num determinado espaço, aplicando-se conceitos macro e
microeconômicos. Para a economia, o turismo é analisado como um serviço.
•
Sociologia: estuda as interações entre os
visitantes e os anfitriões, principalmente quando têm diferentes valores,
expectativas e comportamentos, que podem ou não ser expressos em normas
sociais. A sociologia estuda a qualidade de vida da sociedade.
•
Psicologia: estuda o comportamento e a experiência
do viajante, a natureza dos grupos de viajantes e suas relações interpessoais,
estabelecidas com a cultura dos núcleos receptores.
•
Geografia: estuda as relações espaciais e os
fenômenos derivados das viagens e dos padrões de distribuição espacial da
oferta e da demanda. A geografia estuda os deslocamentos de pessoas de um ponto
a outro da superfície da terra.
P.
16
•
Antropologia: preocupa-se com as relações
interpessoais em diferentes situações e contextos, conforme o comportamento das
populações receptoras e emissoras.
•
Direito: estuda o conjunto de relações e
fenômenos que se originam do ato ou fato jurídico que o indivíduo leva a efeito
para empreender ou realizar uma viagem; possibilita ainda conhecer os direitos
e deveres dos viajantes, bem como o código de ética do bacharel em turismo. O
turismo é considerado exercício do direito à liberdade individual de trânsito.
•
Outras disciplinas, como estatística,
administração, arqueologia, história, comunicação e ciências políticas, podem
trazer grandes contribuições para o turismo. Isso sugere que sua compreensão do
fato e do fenômeno do turismo requer o envolvimento de um sem-número de
disciplinas.[nota
4]
Não podemos nos limitar a uma única definição
de turismo, pois essa disciplina se encontra ligada praticamente a quase todos
os setores da atividade social. A grande variedade de conceitos, todos eles
válidos, circunscreve-se aos campos em que o turismo é estudado.
Os cursos de turismo, especificamente a
disciplina teoria geral do turismo, numa dimensão macro, deveriam dar aos estudantes
uma ampla visão multidisciplinar com interfaces que possibilitassem a
interdisciplinaridade, com a finalidade de prepará-los para exercer a atividade
profissional, que requer dinamismo, múltiplos conhecimentos, flexibilidade e
certa consciência crítica. Esse conteúdo deve ser ministrado no primeiro
semestre, a fim de enfatizar a interdisciplinaridade e contribuir para o estudo
de disciplinas profissionalizantes.
Dada a evolução rápida do setor e, até certo
ponto, a imaturidade da ciência turística, é aconselhável ao docente não basear
os conteúdos programáticos somente no conhecimento, pois este permanece em
constante mutação, e sim no espírito crítico, na análise e no diagnóstico das
situações. Igualmente é aconselhável que os programas sejam bem flexíveis,
permitindo mudanças em um esquema de módulos que possibilite um avanço
progressivo segundo as necessidades tanto dos alunos como do setor turístico.
É recomendado realizar uma pesquisa para
propiciar a interdisciplinaridade, mediante a elaboração de uma monografia que
integre todas as disciplinas do curso de turismo por semestre e/ou ano letivo,
para oferecer ao aluno uma vi-
P.
17
são
do conjunto do sistema de turismo (Sistur), que
possibilite a sua atuação, após a conclusão do curso, no mercado de trabalho. O
objetivo é preparar o aluno para o trabalho em equipe e desenvolver propostas,
a partir de uma perspectiva científica, que integrem os campos teórico e
prático a fim de que, no quarto ano, o aluno esteja capacitado para desenvolver
o trabalho de conclusão de curso dentro de uma perspectiva interdisciplinar.[nota 5]
Seria pertinente realizar uma integração, tanto
horizontal como vertical, nos programas das disciplinas voltadas ao estudo do
turismo, para facilitar o desempenho de docentes formados em outras áreas de
formação e/ou profissionais do mercado.
COMEÇO DO TURISMO
A atividade de turismo teve início na década de
1840 na Inglaterra.[nota *] Nessa época, um pastor batista, Thomas
Cook, com o objetivo de fazer uma campanha contra o consumo de álcool, muito
grande entre seu rebanho, teve a idéia de promover
uma viagem de trem entre duas cidadezinhas. Arrendou um trem e promoveu uma
viagem que teria como objetivo final uma reunião de protesto contra o consumo
de álcool. Foi um sucesso, dada a atração que uma viagem de trem exercia sobre
a população local. Pensando no que havia feito e com o sucesso do empreendimento,
Cook teve a visão de criar uma atividade que possibilitasse às pessoas
deslocar-se em viagens, basicamente para conhecerem outros locais. Abandonou a
igreja e criou uma agência de viagens, a primeira do mundo, com o seu nome. A
partir de então passou a promover excursões no seu país e posteriormente no
continente europeu. Cook acompanhava pessoalmente seus clientes, passando
também a ser o primeiro guia turístico do mundo, seguido por sua esposa. Com o
crescimento da procura, teve a idéia de escrever e
imprimir o que hoje chamamos de guia turístico, com todos os detalhes
geográficos, históricos, usos e costumes, e culinária da época. Assim nasceu o
primeiro guia turístico impresso. A partir daí, sua atividade desenvolveu-se
num crescendo que o obrigou a criar, em 1866, em Londres, o escritório cen-
P.
18
tral de sua empresa, já em
sociedade com seu .filho, denominada Thomas Cook &
Son, marca que se espalhou por todo o mundo como
sinônimo de confiança e qualidade nas viagens turísticas até os dias atuais. A
criatividade, dedicação e iniciativa de Thomas Cook fizeram nascer uma das mais
ricas indústrias de todos os tempos — o turismo.[nota 6]
DEFINIÇÕES TÉCNICAS DE TURISMO
Segundo Mário Carlos Beni, devido ao
crescimento do fluxo turístico, organizações governamentais e da indústria do
turismo precisavam de um mecanismo para controlar o tamanho e as
características do mercado turístico. Mas, primeiramente, havia necessidade de
definir turistas e não-turistas, para fins de estatísticas comparáveis. A
primeira definição, adotada pela Comissão de Estatística da Liga das Nações, em
1937, qualificou turista internacional como "a pessoa que visita um país
que não seja o de sua residência por um período de, pelo menos, vinte e quatro
horas".[nota
7] Essa foi a base, como comenta o autor, de várias definições
posteriores.
Em 1963, as Nações Unidas patrocinaram uma
Conferência sobre Viagens Internacionais e Turismo, realizada em Roma, que
recomendou definições de "visitantes" e turistas, para fins de
estatísticas internacionais, e expôs que, "para propósitos estatísticos, o
termo visitante descreve a pessoa que visita um país que não seja o de sua
residência, por qualquer motivo, e que nele não venha a exercer ocupação
remunerada".[nota
8]
Segundo o pesquisador, a definição acima
possibilitou o surgimento de definições de turistas (visitantes temporários que
permanecem mais de 24 horas no país visitado) e excursionistas (visitantes que
permanecem menos de 24 horas no país visitado), e a Organização Mundial de
Turismo (OMT) passou a adotá-la, incentivando os demais países a fazer o mesmo.
Em 1942, os suíços Hunziker
e Kraft definiram turismo como "a soma dos fenômenos e das relações
resultantes da viagem e da permanência de não-residentes, na medida em que não
leva à residência permanente e não está relacionada a nenhuma atividade
remuneratória".[nota 9]
P.
19
Essa definição teve aceitação generalizada
entre os especialistas, e chega a ser adotada pela Associação Internacional dos
Experts Científicos em Turismo (Aiest).
Outras definições e publicações surgiram, entre
elas podemos destacar a de De la
Torre: "Turismo é a soma de relações e de serviços resultantes de uma
mudança de residência temporária e voluntária motivada por razões alheias a
negócios ou profissionais".[nota 10] Essa definição foi aceita do ponto
de vista formal pela OMT.
Segundo Barreto:
Embora ainda
alguns círculos, principalmente leigos, vejam o turismo apenas como a
"indústria de viagens de prazer", trata-se de algo mais complexo do
que um simples negócio ou comércio [...] o turismo é um amálgama de fenômenos e
relações, fenômenos estes que surgem por causa do movimento de pessoas e sua
permanência em vários destinos. Há no turismo um elemento dinâmico - a viagem -
e um elemento estático -a estada.[nota 11]
Mas, para Beni, as mais diversas definições de
turismo apresentam alguns elementos comuns, relativamente diferentes, que
convém destacar:
•
Viagem ou deslocamento: o movimento está
intimamente conectado ao próprio sentido etimológico do termo tour: viagem em
círculo; deslocamento de ida e volta (tour, em francês, significa apenas
"movimento circular", em linguagem figurada; com ele, os ingleses, no
começo do século XVIII, formaram tourism, tourist; deve-se, pois, aos ingleses o sentido atual do
termo). Sem deslocamento não existe turismo.
•
Permanência fora do domicílio: estritamente
vinculado à viagem, o elemento de permanência fora da própria residência
habitual é parte integrante do conceito de turismo. A duração dessa permanência
é uma das variáveis principais na caracterização e classificação do fluxo.
Também é a solicitação do equipamento receptivo na destinação da viagem. Essa
variável, combinada com a anterior — a permanência — e somada à de
comportamento de gastos do turista no local, constitui, no cruzamento com
outras variáveis auxiliares, a base da compreensão estrutural do tráfego
turístico.
P.
20
•
Temporalidade: a viagem e a permanência são os
dois primeiros elementos característicos, mas são insuficientes para configurar
o fenômeno. Viajantes podem ser também aqueles que se transferem para uma outra
localidade de seu país ou de uma outra nação para fixar residência temporária
ou definitiva. Nesse caso, é certo que não se trata de turista, mas de
emigrante.[nota
12]
Existe um "debate" aberto para se
tentar chegar a um conceito de turismo que seja aceito universalmente. Em 1994,
surgiu uma definição, adotada pela OMT, que formaliza todos os aspectos da
atividade turística: "O turismo compreende as atividades que realizam as
pessoas durante suas viagens e estadas em lugares distintos ao de seu entorno
habitual, por um período de tempo consecutivo inferior a um ano, com
finalidades de lazer, negócios e outros".[nota 13]
De acordo com o estudo, trata-se de uma
definição ampla e flexível, que configura as características mais importantes
do turismo:
•
introdução dos possíveis elementos motivadores
da viagem, "lazer, negócio e outros";
•
apontamento da temporalidade de um ano, período
realmente amplo, se comparado ao tempo, normal da extensão dos vistos de
viagens para turismo pelos governos — três meses — ou com a periodização
prevista por algumas legislações para a delimitação do que se considera
residência habitual — seis meses;
•
delimitação da atividade desenvolvida antes e
durante o período da estada;
•
localização da atividade turística como
atividade realizada "fora de seu entorno habitual". Em 1995, a OMT
entende como entorno habitual de uma pessoa "uma certa área ao redor de
seu lugar de residência acrescida de todos aqueles lugares que visita freqüentemente".
De todas as definições anteriormente expostas
cabe destacar a importância dos seguintes elementos, comuns a todas elas, não
obstante as particularidades próprias das mesmas, segundo a OMT:
•
Existe um movimento físico dos turistas, que,
por definição, são os que se deslocam fora de seu lugar de residência.
•
A estada em um destino é durante um período
determinado de tempo não permanente.
P.
21
•
O turismo compreende tanto a viagem ao destino
como as atividades realizadas durante a estada.
•
Qualquer que seja a motivação para viajar, o
turismo compreende os serviços e produtos criados para satisfazer as
necessidades dos turistas.[nota 14]
CLASSIFICAÇÃO DO TURISMO
O tema é abordado por inúmeros estudiosos do
turismo de maneira diferenciada. Andrade[nota 15] classifica modalidades, tipos e
formas do turismo e menciona que
[…] a
sistemática da classificação usual do turismo resulta da necessidade de um
mínimo de organização indispensável na terminologia designativa e na
distribuição administrativa dos recursos à disposição dos empresários, dos
profissionais do setor e dos turistas. Não possui nenhuma segurança científica
porque, à medida que os responsáveis pelo funcionamento da "máquina
turística" dela exigem maior lucratividade, menos se interessam em
reflexões a respeito de denominações, classificações, divisões e tipificações
dos elementos estruturais do fenômeno.
Para Acerenza, os
principais fatores que levam a estabelecer uma primeira grande classificação do
turismo são o lugar de residência do turista e o âmbito de seu deslocamento.[nota 16]
Depois faz referência às características particulares que cada um dos tipos de
turismo apresenta, assim como as principais diferenças existentes entre eles.
Apresenta também classificação segundo o tipo de operação e a permanência no
lugar de destino, e conclui com outras formas de classificar o turismo.
O PRODUTO TURÍSTICO
Entende-se produto turístico como uma mistura
de elementos tangíveis e intangíveis, centralizados numa atividade específica e
numa determinada destinação. Compreende e combina as atrações dessa destinação,
mais as facilidades e as formas
P.
22
de
acesso, das quais o turista compra a combinação de atividades e serviços para
atender a suas necessidades e desejos.
O produto turístico tem características
próprias, e o estudo deve ser abrangente para analisá-las, a saber:
PRODUTO TURÍSTICO
![[Descrição da imagem] Diagrama conceitual centralizado.No centro uma forma oval com a a frese no seu centro "Produto turítico"; do mesmo parte 14 setas que apontam para caixas retângulares dispostas em cículo. Informações no sentido horário: "Propriedade"; "Bem de consumo abstrato"; Avaliação posterior"; Presença de clientela no local"; "Impossibilidade de estocagem (perecível)"; " Serviços turíticos de forma irregular"; "Complementaridade dos componentes: serviços conjuntos"; "Inseparabilidade produção/serviço"; "Sazonalidade"; "Instabilidade da demanda"; " Demanda de heterogênea"; "Estático"; "Concorrência"; Tempo livre". [Final da descrição]](ANSARAH.%20Teoria%20geral%20do%20turismo.%20p.11-36.Acessivel_arquivos/image001.png)
a)
Prioridade: os consumidores não podem
comprar o produto turístico, mas apenas o uso de um assento numa aeronave, com
data, hora e local predeterminados. Por exemplo, apenas temos o
"direito" de usá-lo durante o tempo pelo qual pagamos.
P.
23
b)
Bem de consumo abstrato: o cliente está
comprando a prestação de serviços dos componentes do produto turístico e não um
objeto.
c)
Superposição da mão-de-obra (produção): a
avaliação é posterior, os serviços são consumidos no momento de sua utilização.
Após o consumo não resta mais nada, senão "a conta no bolso e a recordação
'boa ou má"'. Os serviços são consumidos no momento de sua prestação.
d)
Necessidade da presença da clientela no local
da produção: o turista (o sujeito) que se desloca para o destino, ao contrário
dos bens tangíveis, é o consumidor que se movimenta e não o produto. O turista
se desloca para um hotel, para um centro de convenções, para uma determinada
atração.
e)
Impossibilidade de estocagem (consumo
imediato): no turismo, produto industrializado que não for vendido no dia, até
a meia-noite, jamais poderá ser recuperado. Por exemplo: assentos em aeronaves,
salas em centros de convenções, leitos de hotéis, mesas de restaurantes,
ingressos em parques temáticos.
f)
Serviços turísticos prestados de forma
irregular: em virtude de a-mão-de-obra ser muitas vezes não qualificada,
especialmente nos períodos de férias e feriados prolongados, aumentando o fluxo
turístico em destinações.
g)
Complementaridade dos componentes: o turista
necessita de serviços conjuntos de vários empreendedores. Utiliza meios de
transportes, alojamentos, restaurantes, equipamentos de recreação e
entretenimentos de um mesmo núcleo receptor. A falta de um deles poderá
inviabilizar a presença de turistas.
h)
Inseparabilidade da produção e serviços: muitas
vezes a produção de serviços turísticos ocorre ao mesmo tempo e lugar que se
está prestando atendimento ao cliente; daí se dizer que a produção e a
prestação de serviços são inseparáveis.
i)
Instabilidade da demanda: é difícil de prever
com exatidão a procura dos serviços turísticos pelo cliente. Pode ocorrer
devido a problemas econômicos, decorrentes da instabilidade de renda das
pessoas, e não econômicos, como moda, status, situação política do núcleo
receptor, etc.
j)
Demanda heterogênea: os promotores do mercado turístico
enfrentam situações que provocam a heterogeneidade da demanda, como fatores
econômicos, sociais, culturais, políticos e legais. Muitas vezes a demanda é
heterogênea num mesmo país.
P.
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k)
Estático: impossível mudar a localização do
produto turístico. Para a economia a oferta é estática e a demanda é elástica.
l)
Acentuada concorrência entre si: o
desenvolvimento dos transportes provocou maior mobilidade e encurtamento das
distâncias e horas de viagens. Para o mercado há necessidade do conhecimento de
técnicas mercadológicas específicas para a efetivação da comercialização.
m) Tempo
livre: para o verdadeiro turismo — turismo de férias — não basta somente o
dinheiro para adquirir o produto; é necessário o tempo livre (férias) do
consumidor.
Produto turístico difere fundamentalmente dos
produtos industrializados e do comércio. É composto de elementos e percepções
intangíveis, e é sentido pelo consumidor como experiência.
Produto turístico é uma atividade econômica,
como prestação de serviços, resultado de inúmeras atividades de transformação e
produção.
COMPONENTES DO PRODUTO TURÍSTICO
Dividem-se
em:
a)
Oferta primordial: patrimônio turístico. São os
elementos naturais (montanha, planície, lagos, fauna, flora) e os elementos
culturais (lugares históricos, museus, sítios arqueológicos, estilos de vida,
folclore, eventos), sendo que alguns autores mencionam elementos artificiais
(parques temáticos como a Disney).
b)
Oferta complementar: são adequadas vias de
comunicação, sistemas de transportes, de telecomunicação e de serviços gerais
(hospitais, centros de treinamento e convenções, serviços de apoio), infra-estrutura (rede de combustíveis, energia elétrica,
tratamento de água e esgoto, coleta de lixo), acrescidas de facilidades como
rede gastronômica, serviços de entretenimento, serviços de hospedagem, shopping
centers.
Portanto, o produto turístico em sua fase final
se apresenta como atividade do setor terciário. Um assento no avião ou uma cama
no hotel podem ser produtos individuais para os produtores, porém para os
turistas são elementos de um produto total, pois estes procuram serviços.
O produto turístico é entendido como uma
experiência, disponível a um preço, que inclui cinco componentes básicos:
P.
25
•
atrações: constituem a matéria-prima, sobre as
quais o núcleo se organiza;
•
facilidades, instalações e serviços: podem não
gerar fluxos turísticos, mas a falta deles pode impedir o turista de visitar as
atrações;
•
acessos: vias e meios de transportes
disponíveis são considerados integrantes da infra-estrutura
do núcleo receptor;
•
imagens e percepções dos destinos: são
poderosos motivadores nas viagens e turismo;
•
preço: nas viagens como um todo,
individualizado em alojamentos, passagens aéreas, restaurantes e participação
nas atrações. É talvez o principal elemento que influi na decisão do cliente,
devido à competitividade dos produtos. É o que mais interessa na ótica do
marketing, correspondendo a um "pacote de componentes tangíveis e
intangíveis", baseados numa atividade de um destino.
Para o consumidor o produto turístico é uma
mistura de tudo o que uma pessoa pode consumir, utilizar, experimentar,
observar e apreciar durante uma viagem ou uma estada.
Assim, podemos afirmar que produto turístico
inclui, por exemplo, serviços de agências de viagens, alojamentos, transportes,
diversões, aquisição de produtos de recordação, contatos sociais com outros
turistas e com a população local, praias, circuitos nas montanhas, atividades
de caça e pesca, visita a castelos, museus, palácios, cidades e locais típicos,
com qualidade, eficiência e cortesia nos serviços recebidos. Serviços cordiais,
sem exploração, dos motoristas de táxis, policiais de trânsito. Ainda,
sensibilidade à beleza da paisagem e à amenidade do clima, à preservação e
conservação dos locais de interesse turístico.
Portanto, na ótica da "procura" pelo
turista, pode-se afirmar que todos os produtos de que ele necessita são real e
potencialmente produtos turísticos, o que, em lógica pura da oferta, permite
nos identificar como um único produto turístico.[nota 17]
MERCADO TURÍSTICO
Entende-se mercado como uma troca de produtos
ou valores; é um comércio. Há relação entre a oferta e a demanda de bens e
serviços e capitais. Todas as pessoas
P.
26
e
empresas que oferecem ou demandam tais bens, serviços e capitais determinam o
surgimento organizado e as condições dessa troca.
No estudo do mercado existem três questões:
•
o que produzir — eficiência atributiva, não
somente nos bens e serviços, mas ainda na quantidade e na qualidade;
•
como produzir — eficiência produtiva; fazer no
menor custo;
•
para quem produzir — eficiência distributiva;
satisfação do consumo proporcional ao custo.
As três questões devem ser resolvidas
simultaneamente em cada economia nacional para milhões de pessoas e centenas de
milhares de produtos. São funções básicas cumpridas pelos mercados, bem
realizadas, ainda que de modo imperfeito; seu desempenho é ao menos muito
melhor do que o de qualquer outro sistema alternativo conhecido.
Mercados constituem um sistema de informações
que permitem a milhares de agentes econômicos, produtores e consumidores, até
certo ponto isolados entre si, tomarem as decisões necessárias para que toda a
sociedade possa alcançar as três eficiências citadas.
De acordo com Beni, para cada produto turístico
pode-se identificar um tipo de mercado, real e potencial. Fala-se, então, em
mercados turísticos.
Os mercados turísticos inserem-se na categoria
concorrência imperfeita. Os produtos não são homogêneos e intercambiáveis, mas
diferenciados. Cada empresa vende um produto que de certo modo se traduz como
único e diferenciado dos demais.[nota 18] Assim, ainda de acordo com Beni, não
existem dois hotéis iguais nem instalados no mesmo lugar. Um roteiro turístico
que é produzido e comercializado por uma operadora não é vendido com todos os
detalhes por nenhuma outra operadora.
As empresas de turismo têm certa capacidade de
variar seus preços: os clientes estarão dispostos a pagar mais por um produto
melhor, ou a consumir mais, de uma empresa que oferecer preços mais atraentes.
O mercado, produto da confrontação de oferta e
demanda de serviços turísticos, exibe certas imperfeições quanto a suas formas
de concorrência. Sem dúvida, na maioria dos países, funciona razoavelmente, em
especial se estiver livre de controle ou interferências, exceto por algumas
medidas que, atuando pela via do próprio mercado, favorecem sua eficiência.
Caso seja oferecida na grade curricular a
disciplina teoria geral de turismo, nos três anos e/ou seis semestres, o
conteúdo sobre mercado turístico merece ser abordado em profundidade durante um
ano e/ou dois semestres.
P.
27
SEGMENTAÇÃO DE MECADO
Para manter o patamar de crescimento e promover
o turismo de forma efetiva e com qualidade, é absolutamente necessária a
constante realização de pesquisas que nos permitam conhecer, além do número de
turistas que entraram ou saíram de um país em determinada época, o perfil da
demanda real, suas necessidades e desejos, bem como detectar a demanda potencial.
Quanto mais as características do mercado-alvo forem conhecidas, maior será a
eficácia das técnicas mercadológicas de publicidade e de promoção. Mas, para
que isso aconteça, é necessário o desenvolvimento de estudos de mercado,
segmentando-o o quanto for necessário para permitir uma análise completa dos
elementos que conduzirão os planos de desenvolvimento turístico.
Segmentar o mercado é identificar clientes com
comportamentos homogêneos quanto a seus gostos e preferências. A segmentação
possibilita o conhecimento dos principais destinos geográficos, dos tipos de
transportes, da composição demográfica dos turistas e da sua situação social e
estilo de vida, entre outros elementos.
Segundo Vaz,[nota 19] a segmentação de mercado tem as
seguintes características:
a)
Segmentação demográfica pessoal
·
turismo infantil;
·
turismo juvenil;
·
turismo da terceira idade;
·
turismo romântico;
·
turismo familiar;
·
turismo gay;
·
turismo de saúde;
·
turismo para deficientes.
b)
Segmentação demográfica sociocultural
·
turismo de estudos;
·
turismo cultural;
·
turismo religioso;
·
turismo de raízes.
c)
Segmentação demográfica socioeconômica
·
turismo de eventos;
·
turismo de negócios;
P.
28
·
turismo comercial;
·
turismo de incentivo;
·
turismo social.
d)
Segmentação psicográfica
·
turismo-surpresa;
·
turismo-aventura;
·
turismo esportivo;
·
turismo gastronômico;
·
turismo ecológico/rural;
·
turismo hidroviário.
e)
Segmentação comportamental
·
turismo de época.[nota 20]
A intenção em elencar essas classificações não
foi esgotar o assunto, pois há vários segmentos do mercado turístico emergentes
que poderão ser analisados, dependendo dos objetivos e conteúdos
da disciplina.
SISTEMA DE TURISMO
Na década de 1950, um grupo de cientistas
propôs o conceito de sistema que causou um impacto considerável, afetando todos
os campos do conhecimento humano. Surgiram várias referências nas mais variadas
áreas do conhecimento com abordagem sistêmica.
A natureza da atividade turística é um
resultado complexo de inter-relações entre diferentes fatores que precisam ser
considerados conjuntamente, numa ótica sistemática, isto é, um conjunto de
elementos inter-relacionados entre si que se desenvolvem dinamicamente. Para a
OMS, concretamente se distinguem quatro elementos básicos no conceito da
atividade turística:
a)
A demanda: formada pelo conjunto de
consumidores ou possíveis consumidores — de bens e serviços turísticos.
b)
A oferta: composta pelo conjunto de produtos,
serviços e organizações envolvidos ativamente na experiência turística.
P.
29
c)
O espaço geográfico: base física onde tem lugar
a conjunção ou encontro entre a oferta e a demanda e onde se situa a população
residente; pode ser ao mesmo tempo um destino turístico.
d)
Os operadores do mercado: são empresas e
organismos cuja função principal é facilitar a inter-relação entre a oferta e a
demanda. Entram nessa consideração as agências de viagens, os meios de
transporte e organismos públicos e privados, que, mediante seu trabalho
profissional, são artífices da ordenação e promoção do turismo.[nota 21]
A ciência do turismo está ainda em formação,
mas alguns estudiosos já arriscam mencionar, principalmente na Europa, a
"ciência social de viagens". Parte desses estudos consiste na
elaboração de teorias sobre o funcionamento do fato e do fenômeno e de modelos
explicativos sobre o funcionamento do mercado turístico. Uma das teorias mais
difundidas atualmente é a dos sistemas, adotada e divulgada, no Brasil, por
Beni em 1997, e, em outros países, por Neil Leiper,
em 1979, Sérgio Molina,[nota 22] em 1991, entre outros.
Para Beni:
O Turismo, na
linguagem da Teoria Geral de Sistemas, deve ser considerado um sistema aberto
que [...] permite a identificação de suas características básicas, que se
tornam os elementos do sistema.
Essa abordagem
facilita estudos multidisciplinares de aspectos particulares do Turismo,
possibilitando assim a realização de análises interdisciplinares a partir de
várias perspectivas com ponto de referência comum[...]
Para tanto,
relacionou-se uma série de funções inerentes à natureza da atividade de
Turismo, tais como: o conjunto de fatores que geram as motivações de viagens e
a escolha das áreas de destinação turística; o deslocamento de indivíduos no
contínuo espaço-tempo; os equipamentos de transporte oferecidos ao tráfego de
pessoas; o tempo de permanência na área receptora; a disponibilidade e a
solicitação não só de equipamentos de alojamento hoteleiro e extra-hoteleiro,
mas também de equipamentos complementares de alimentação; a disponibilidade e a
solicitação de equipamentos e instalações de recreação e entretenimento; a
fruição dos bens turísticos; o processo de produção e distribui-
P.
30
ção desses bens e serviços; e também a estrutura e o
comportamento de gastos do turista. Emergem desse repertório de funções
primárias e inerentes à atividade funções derivadas que ampliam e consolidam o
contexto em que ela se processa, contidas no ambiente natural, cultural, social
e econômico, e nas funções de organização e operacionalização. A partir dessa
base conceitual pode-se configurar o diagrama de contexto do Sistema de Turismo
[...][nota 23]
Dessa
maneira, Beni divide sua teoria de sistemas em três grandes conjuntos:
•
Relações ambientais, que agrupa os subsistemas
ecológico, social, econômico e cultural.
•
Organização estrutural, que apresenta a superestrutura
(ordenamento jurídico-administrativo) e a infra-estrutura
(serviços urbanos, saneamento básico, sistemas viário e de transportes).
•
Ações operacionais, que engloba os subsistemas
de produção, distribuição e consumo do mercado turístico (os dois primeiros
conjuntos englobam a oferta, e o terceiro, a demanda).
CONCEITUANDO E ENTENDENDO A CADEIA PRODUTIVA
Hoje o ensino em turismo não pode deixar de aprensentar os aspectos do desenvolvimento regional e suas
interfaces com os diversos tipos de aglomerados de empresas. Isto é, como se
processam as relações organizacionais e os resultados decorrentes, como os
ganhos de produtividade e competitividade das empresas, o fortalecimento de
setores produtivos e o aumento da cooperação.
Souza[nota 24]
propõe conceituação de Cadeia Turística como:
Um conjunto de
empresas e dos elementos materiais e imateriais que realizam atividades ligadas
ao turismo, com procedimentos, idéias, doutrinas e
princípios coesos e afins, para conquista dos seus mercados estratégicos
respectivos, utilizando-se dos produtos competitivos.
É importante entender os componentes e a
produção da Cadeia Produtiva no Turismo para poder abordar clusters.
P.
31
Poucos autores se referem a dusters
fora do setor industrial, apenas Porter menciona a formação e a aplicação desse
modelo para o setor de turismo. Em seu artigo "Cluster e
competitividade", Porter comenta que:
[...] a
satisfação do turista depende não apenas do apelo da atração primária do local,
mas também da qualidade e eficiência de empresas correlatas - hotéis,
restaurantes, centros comerciais e meios de transportes. Como os membros de um
cluster são mutuamente dependentes, o bom desempenho de um pode aumentar o
sucesso dos demais.[nota 25]
Para Beni[nota 26] cluster pode ser definido como
"um conjunto de atrativos com destacado diferencial turístico, dotado de
equipamentos e serviços de qualidade, com excelência gerencial, concentrado num
espaço geográfico delimitado".
TURISMO E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS
Atualmente, o estudo do turismo deve ser
direcionado para o desenvolvimento sustentável, conceito essencial para
alcançar metas de desenvolvimento sem esgotar os recursos naturais e culturais
nem deteriorar o meio ambiente. Entendemos que a proteção ao meio ambiente e o
êxito do desenvolvimento turístico são inseparáveis. O turismo sustentável é
definido como um modelo de desenvolvimento econômico concebido para:
·
melhorar a qualidade de vida da comunidade
receptora;
·
proporcionar ao turista uma experiência de
qualidade;
·
manter a qualidade do meio ambiente de que
tanto a comunidade anfitriã como os visitantes dependem.
O docente deve estar atento para repassar aos
alunos a preocupação com o meio ambiente.
Também é de total relevância que o docente
ministre as disciplinas relacionadas ao estudo do turismo, com conceitos
referentes à globalização e às sociedades pós-industriais, com o breve auxílio
de um instrumental teórico-filosófico, como menciona Trigo:
P.
32
O Turismo
deixou de ser apenas um complexo socioeconômico para se tornar uma das forças
transformadoras do mundo pós-industrial. Juntamente com as novas tecnologias
(telecomunicações, engenharia genética, etc.), o Turismo está ajudando a
redesenhar as estruturas mundiais, influenciando a globalização, os novos
blocos econômicos e, em última análise, a nova ordem internacional.[nota 27]
Para finalizar o conteúdo da disciplina teoria
geral do turismo, sugerimos a abordagem e análise das pesquisas sobre os
principais países emissores e receptores publicadas pela OMT e pelo Instituto
Brasileiro de Turismo (Embratur) entre outros.
CONCLUSÃO
Com relação aos estudos de turismo, atualmente
é importante ter consciência de que os estudos teóricos são formados e
necessários, mas os fatores determinantes do êxito desse estudo estão no
equilíbrio entre a teoria e a prática. Algumas instituições hesitam na hora de
incluir experiências práticas, duvidando da sua eficácia.
A carência de uma formação prática nos estudos
de turismo é um fator-chave para explicar o desequilíbrio existente entre as
necessidades do setor e os graduados. A formação prática é mais custosa que a
teórica, necessita de instalações, material, etc. É preciso buscar soluções
alternativas na recém-criada Comissão de Especialistas em Turismo (Diário
Oficial da União, 16 de junho de 2000), nas associações de estudantes, níveis
nacional e internacional, programas de cooperação educativa, reciclagem, bolsas
de trabalho, etc., interessantes e que ajudam a adquirir a prática necessária
para o mercado.
Deve-se buscar colaboração entre as
universidades, as escolas de turismo, os profissionais do setor e a
administração, planificando um programa educacional que defina os objetivos que
se quer alcançar, e que englobe todos os aspectos da formação turística. Deve
incluir tudo que for relacionado, direta ou indiretamente, com o turismo,
fazendo com que a matéria tenha um caráter multidisciplinar.
Este trabalho procurou descrever e conteúdo
programático que consideramos mais relevante para o ensino da disciplina teoria
geral do turismo. Entende-
P.
33
mos que esse conteúdo, para ser
bem assimilado pelos alunos, deve ser distribuído no decorrer de pelo menos
quatro semestres.
Todas essas medidas e outras similares farão
com que a educação no setor de turismo seja um desafio-chave nos próximos anos.
Sem dúvida esse será o primeiro passo para o alcance da excelência do setor.
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notas de rodapé
Nota 1, página 13: Manuel Coelho de Silva, "Contributos
para a história da formação turística em Portugal", em Estudos turísticos
(Lisboa: Instituto Nacional de Formação Turística, 1995), p. 11.
Nota 2, página 15: Miguel Ángel
Acerenza, Administración del
turismo, v. 1 (México: Trillas, 1991), p. 23.
Nota 3, página 15: Mirian Rejowski,
Turismo e pesquisa científica (Campinas: Papirus, 1996), p. 18.
Nota 4, página 16: Para uma leitura
complementar, ver Mirian Rejowski, op. cit.; Mário
Carlos Beni, Análise estrutural do turismo (3. ed. São Paulo: Editora Senac São
Paulo, 2000); Miguel Ángel Acerenza,
op. cit.
Nota *, página 17: Para mais informações a
respeito da história do turismo, recomendamos a leitura de Mirian Rejowski (org.), Turismo no percurso do tempo, Série
Turismo (São Paulo: Aleph, 2002).
Nota 5, página 17: Recomendamos a leitura do
livro de Ada de Freitas Maneti Dencker,
Métodos e técnicas de pesquisa em turismo (São Paulo: Futura, 1998).
Nota 6, página 18: Mais informações, no
capítulo de Mirian Rejowski sobre "Agência de
viagem", p. 37.
Página
notas de rodapé
Nota 7, página 18: Mário Carlos Beni, op. cit.,
pp. 33-34.
Nota 9, página 18: Cf. Hunziker
e Kraft, apud Mário Carlos Beni, op. cit., pp. 34-35. Beni classifica as
definições mencionadas como "holísticas", porque procuram abranger a
essência total do assunto.
Nota 10, página 19: Oscar Padilla De la Torre, El turismo - fenômeno social (México: Fondo de
Cultura Econômica, 1997), p. 15.
Nota 11, página 19: Margarita Barreto,
Manual de iniciação ao estudo do turismo (Campinas: Papirus, 1995), p. 12.
Nota 12, página 20: Mário Carlos Beni, op.
cit., pp. 34-38.
Nota 13, página 20: OMT, Introducción al turismo (Madri: OMT, 1998), p. 44.
Nota 14, página 21: Ibid., p. 45.
Nota 15, página 21: José Vicente Andrade,
Turismo: fundamentos e dimensões (São Paulo: Ática, 1992), pp. 47-85.
Página
notas de rodapé
Nota 16, página 21: Miguel Ángel Acerenza, op. cit., pp.
40-50.
Nota 17, página 25: Para mais
esclarecimentos quanto à produção, distribuição e consumo do produto turístico,
ver Mário Carlos Beni, op. cit., pp. 169-206; 241-252.
Nota 18, página 26: Mais informações ver
Mário Carlos Beni, op. cit., pp. 143-157.
Nota 19, página 27: Gil Nuno Vaz,
Marketing turístico (São Paulo: Pioneira, 1999).
Nota 20, página 28: Para maiores
informações ver Gil Nuno Vaz, op. cit., e Marília Gomes dos Reis Ansarah (org.), Turismo: segmentação de mercado (São Paulo:
Futura, 1999), nos quais são abordados os principais segmentos contemporâneos
com "cases" brasileiros.
Nota 21, página 29: OMT, Introduccíón al turismo, cit., p. 45.
Nota 22, página 29: Rara mais informações
a respeito das teorias de Leiper e Molina,
recomendamos as seguintes leituras: Miguel Ángel Acerenza, op. cit., Margarita Barreto, op. cit.; Regina G. Schluter & Gabriel Winter, El
fenômeno turístico (Buenos Aires: Fundación Universidad a Distancia"Hernandarias",
1993).
Nota 23, página 30: Mário Carlos Beni, op.
cit., pp. 44-45.
Página
notas de rodapé
Nota 24, página 30: Myrtis
Arraes de Souza, "Cadeia turística" (Fortaleza: Banco do Nordeste,
Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste - Etene,
Equipe de Estudos de Sistemas Agroindustriais, 2000, mimeo.,
p. 2.
Nota 25, página 31: Michael Porter,
"Clusters e competitividade", em HSM Management, São Paulo, jul-ago. 1999, p. 105.
Nota 26, página 31: Mário Carlos Beni,
"A serra gaúcha e seu potencial para conversão em cluster turístico",
em Margarita Barreto
&
Mirian Rejowski (orgs.), O
turismo: interfaces, desafios e incertezas (Caxias do Sul: Educs,
2001), p. 107.
Nota 27, página 32: Luiz Gonzaga Trigo, A
sociedade pós-industrial e o profissional em turismo (Campinas: Papirus, 1998),
p. 9.