Título:
Introdução ao estudo do método de Marx.
Autor: José
Paulo Netto.
Este material
foi adaptado pelo Laboratório de Acessibilidade da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, em conformidade com a Lei 9.610 de 19/02/1998, não podendo ser
reproduzido, modificado e utilizado com fins comerciais.
Adaptado por:
Breno Mateus.
Revisado por:
Alessandra.
Adaptado em:
agosto de 2025.
Padrão vigente a
partir de março de 2022.
Referência: NETTO, José Paulo. Introdução ao estudo do método de Marx. 1.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011. p. capa-67.
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![[Descrição da imagem] Capa de livro. A imagem mostra a capa do livro "Introdução ao estudo do método de Marx", de José Paulo Netto, publicado pela editora Expressão Popular. A arte da capa traz um desenho estilizado de um braço com mão fechada segurando um livro na parte superior esquerda e, na parte inferior, várias mãos fechadas em punho levantadas, simbolizando resistência ou luta. O título do livro está escrito em letras vermelhas, centralizado na capa. [Final da descrição]](NETTO.%20Introducao%20ao%20estudo.%20p.%20capa-67.%20Acessivel._arquivos/image001.png)
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Pré-textuais
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Pré-textuais
JOSÉ PAULO NETTO
INTRODUÇÃO
AO ESTUDO DO MÉTODO DE MARX
1ª EDIÇÃO
EDITORA
EXPRESSÃO POPULAR
SÃO PAULO, 2011
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Pré-textuais
Copyright © 2011 by Editora Expressão Popular
Revisão: Miguel
Cavalcanti Yoshida
Projeto gráfico, capa e diagramação: ZAP Design
Impressão e acabamento: Maxprint
O texto agora publicado é uma versão revisada e
simplificada do ensaio “Introdução ao método na teoria social”, preparado pelo
Prof. José Paulo Netto para o livro, de autoria coletiva, Serviço Social: Direitos Sociais e
Competências Profissionais (Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009). A Editora
Expressão Popular consigna seus agradecimentos ao CFESS/Conselho Federal de
Serviço Social pela cessão dos direitos aurorais.
Dados Internacionais de
Catalogação-na-Publicação (CIP)
Paulo Netto, José 1947-
P331i introdução ao estudo do método de Marx / José Pauta
Netto. -1.ed.
- São Paulo: Expressão Popular, 2011.
64 p.
Indexado em GeoDados – http://Avww
geodados.uem.br
ISBN 978-85-7743-182-3
1.
Marx, Karl, 1818-1883. 2. Marxismo. I. Título.
CDD 335 411
335.5
Bibliotecária: Eliane M. S. Jovanovich CRB 9/1250
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada
ou reproduzida sem a autorização da editora.
Edição revista e atualizada conforme a nova
ortografia
1a edição: abril de 2011
P. Pré-textuais
2a reimpressão: julho de 2012
EDITORA EXPRESSÃO POPULAR
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P.
Pré-textuais
Sumário
Introdução
....................................................................................................................9
Interpretações equivocadas
......................................................................................11
O método de Marx: uma longa elaboração teórica
...................................................16
Teoria, método e pesquisa
........................................................................................19
As formulações teórico-metodológicas
......................................................................28
O método de Marx
.....................................................................................................51
P. 6
P. 7
Todo começo é difícil em
qualquer ciência.
Karl Marx
P.
9
A questão
do método é um dos problemas centrais (e mais polêmicos) da teoria
social - demonstra-o o esforço dos clássicos das ciências sociais: não foi por
acaso que Durkheim (1975) se ateve à construção de um método para a sociologia
e que Weber (1992, 2000), além de se ocupar da conceptualização das categorias
sociológicas, escreveu largamente sobre metodologia. Por isso mesmo, toda
aproximação séria a tais ciências implica um esforço de clarificação
metodológica (Fernandes, 1980). E não é casual que sempre que elas tenham sido
objeto de questionamento, o debate metodológico esteve em primeiro plano -
assim ocorreu, por exemplo, quando se tornou visível, nos anos 1960-1970, a
crise da sociologia acadêmica (Gouldner, 2000; Morin, 2005 e Giddens, 1978), e
assim voltou a verificar-se quando, já aprofundada esta crise, as ciências
sociais desenvolveram explicitamente a discussão sobre os
"paradigmas" (Santos, 1989,1995 e 2000).
A questão do método - que também é polêmica nas
ciências que têm por objeto a natureza (Popper, 1980; Geymonat, 1984-1985;
Feyerabend, 1990, 2007) - apresenta-se tanto mais problemática quanto mais está
conectada a supostos de natureza
P. 10
filosófica. De
fato, não se pode analisar a metodologia durkheimiana sem considerar seu enraizamento
positivista, bem como não se pode debater a "sociologia compreensiva"
de Weber sem levar em conta o neokantismo que constitui um de seus suportes.
Também no que toca à teoria
social de Marx a questão do método se apresenta como um nó de problemas. E,
neste caso, problemas que não se devem apenas a razões de natureza teórica e/ou
filosófica: devem-se igualmente a razões ideopolíticas - na medida em que a
teoria social de Marx vincula-se a um projeto revolucionário, a análise e a
crítica da sua concepção teórico-metodológica (e não só) estiveram sempre
condicionadas às reações que tal projeto despertou e continua despertando.
Durante o século XX, nas chamadas "sociedades democráticas", ninguém
teve seus direitos civis ou políticos limitados por ser durkheimiano ou
weberiano - mas milhares de homens e mulheres, cientistas sociais ou não, foram
perseguidos, presos, torturados, desterrados e até mesmo assassinados por serem
marxistas.
Esta referência ideopolítica
não será tematizada neste brevíssimo
texto introdutório, elaborado especificamente
para estudantes que se iniciam nas Ciências Sociais e trabalhadores e militantes sociais
P. 11
interessados na compreensão rigorosa da
sociedade em que vivemos (donde, inclusive, o caráter da bibliografia, citada
apenas em idiomas conhecidos). Mas é preciso levar tal referência sempre em
conta, porque uma parcela considerável das polêmicas em torno do pensamento de
Marx parte tanto de motivações científicas quanto de recusas ideológicas —
afinal, Marx nunca foi um obediente servidor da ordem burguesa: foi um pensador
que colocou, na sua vida e na sua obra, a pesquisa da verdade a serviço dos
trabalhadores e da revolução socialista.
Interpretações equivocadas
O estudo da concepção teórico-metodológica de Marx
apresenta inúmeras dificuldades - desde as derivadas da sua própria
complexidade até as que se devem aos tratamentos equivocados a que obra
marxiana foi submetida. Antes de tangenciar as dificuldades específicas do
tema, cabe mencionar rapidamente alguns equívocos que decorrem das
interpretações que deformaram, adulteraram e/ou falsificaram a concepção
teórico-metodológica de Marx.
Paradoxalmente, quando se analisam os equívocos e
as adulterações existentes acerca desta concepção,
verifica-se que foram responsáveis por
P. 12
eles tanto os próprios seguidores de Marx quanto seus
adversários e detratores. Uns e outros, por razões diferentes, contribuíram
decisivamente para desfigurar o pensamento marxiano.
No campo marxista, as deformações tiveram por base
as influências positivistas, dominantes nas elaborações dos principais
pensadores (Plekhanov, Kautsky) da Segunda Internacional, organização
socialista fundada em 1889 e de grande importância até 1914. Essas influências
não foram superadas - antes se viram agravadas, inclusive com incidências
neopositivistas - no desenvolvimento ideológico ulterior da Terceira
Internacional (organização comunista que existiu entre 1919 e 1943), culminando
na ideologia stalinista. Delas resultou uma representação simplista da obra
marxiana: uma espécie de saber total, articulado sobre uma teoria geral do ser
(o materialismo dialético) e
sua especificação em face da sociedade (o materialismo histórico). Sobre esta base surgiu farta literatura
manualesca, apresentando o método de Marx como resumível nos "princípios
fundamentais" do materialismo dialético e do materialismo histórico, sendo
a lógica dialética
"aplicável" indiferentemente à natureza e à sociedade, bastando o
conhecimento das suas leis (as
célebres "leis da dialética") para assegurar o bom
P. 13
andamento das pesquisas. Assim, o conhecimento da realidade
não demandaria os sempre árduos esforços investigativos, substituídos pela
simples "aplicação" do método de Marx, que haveria de
"solucionar" todos os problemas: uma análise "econômica" da
sociedade forneceria a "explicação" do sistema político, das formas
culturais etc. Se, num texto célebre dos anos 1960, Sartre (1979) ironizava os
resultados obtidos desta maneira, já muito antes, numa carta de 5 de agosto de
1890, Engels protestava contra procedimentos deste gênero, insistindo em que a
Mas a nossa [de Marx e dele]
concepção da história é, sobretudo, um
guia para o estudo [...] É necessário voltar a estudar
toda a história, devem examinar-se em todos os detalhes as condições de
existência das diversas formações sociais antes de procurar deduzir
delas as idéias políticas, jurídicas, estéticas, filosóficas, religiosas etc.
que lhes correspondem. (Marx-Engels, 2010, p. 107; itálicos não originais).
Acresce, ainda, que, no registro dos manuais, Marx
aparece geralmente como um teórico fatoria-lista - ele teria sido aquele que,
na análise da história e da sociedade, situou o "fator econômico"
como determinante em relação aos "fatores" sociais, culturais etc.
Também Engels, em carta de setembro de 1890,
P. 14
já advertira contra essa deformação: recordando que
Marx e ele sustentavam tão somente a tese segundo a qual a produção e a reprodução da vida real
apenas em última instância determinavam a história, observava:
Nem Marx nem eu jamais afirmamos
mais que isto. Se alguém o tergiversa, fazendo do fator econômico o único determinante, converte esta
tese numa frase vazia, abstrata, absurda. (Marx-Engels, op. cit., p. 103-104).
Tal concepção reducionista, que nada tem a ver com
o pensamento de Marx, é compartilhada também por muitos dos adversários
teóricos de Marx. Weber, por exemplo, criticou, na "concepção materialista
da história", as explicações "monocausalistas" dos processos
sociais, isto é, explicações que pretendiam esclarecer tudo a partir de uma
única causa (ou "fator"); a crítica é procedente se relacionada a
teorias efetivamente "monocausalistas" mas é inteiramente inepta se
referida a Marx, uma vez que, como realçou um de seus mais qualificados
estudiosos, "é o ponto de vista da totalidade e não a predominância das
causas econômicas na explicação da história que distingue de forma decisiva o
marxismo da ciência burguesa" (Lukács, 1974, p. 14).
Atualmente, no diversificado e heterogêneo campo
dos adversários (e mesmo detratores) de
P. 15
Marx, porém, a crítica se concentra
especialmente sobre dois eixos temáticos. O primeiro diz respeito a uma suposta
irrelevância das dimensões culturais e simbólicas no universo teórico de Marx,
com todas as consequências daí derivadas para a sua perspectiva metodológica.
Apesar de amplamente difundida em meios acadêmicos, trata-se de crítica
absolutamente despropositada, facilmente refutável com o recurso à textualidade
marxiana - dados os limites deste escrito introdutório, recordo, tão somente
como contraprovas, o peso que Marx atribui às "tradições" quando
tangencia a propriedade comunal entre os eslavos (Marx, 1982, p. 18) e as suas
permanentes preocupações com a especificidade de esferas ideais como a arte
(Marx-Engels, 2010; Lukács, s.d. e 2009, p. 87-119). O segundo eixo temático
relaciona-se a um pretenso "determinismo" no pensamento Marxiano: a
teoria social de Marx estaria comprometida por uma teleologia evolucionista —
ou seja, para Marx, uma dinâmica qualquer (econômica, tecnológica etc.)
dirigiria necessária e compulsoriamente a história para um fim de antemão
previsto (o socialismo). Vários estudiosos já mostraram sobejamente a
inconsistência dessa crítica (Mészáros, 1993, p. 198-202; Wood, 2006, p.
129-154; Borón et alii, 2007,
p. 43-47); recente-
P. 16
mente, contudo, ela foi retomada por um teórico
pós-moderno de grande influência no Brasil (Santos, 1995, p. 36-38, 243), a que
dediquei uma nota crítica (Netto, 2004, p. 223 e ss.).
Praticamente todas essas interpretações equivocadas
podem ser superadas - supondo-se um leitor sem preconceitos - com o recurso a
fontes que operam uma análise rigorosa e qualificada da obra marxiana como, por
exemplo, os diferenciados estudos de Rosdolsky (2001), Dal Pra (1971), Lukács
(1979), Dussel (1985), Bensaïd (1999, terceira parte) e Mészáros (2009, cap.
8).
Entretanto, é a recorrência aos próprios textos de
Marx (e, eventualmente, de Marx e Engels) que propicia o material indispensável
e adequado para o conhecimento do método que ele descobriu para o estudo da
sociedade burguesa.
O método de Marx: uma longa elaboração teórica
Sabe-se que Marx (1818-1883) inicia efetivamente
sua trajetória teórica em 1841, aos 23 anos, ao receber o título de doutor em
Filosofia pela Universidade de Jena. Mas é entre 1843 e 1844, quando se
confronta polemicamente com a filosofia de Hegel, sob a influência materialista
de Feuerbach, que ele começa a revelar o seu perfil de pensador original
P. 17
(são deste período os seus
textos Para a questão judaica e
Crítica da filosofia do direito de
Hegel. Introdução).
É, porém, com o estímulo provocado pelas
formulações do jovem Engels acerca da economia política que Marx vai direcionar
as suas pesquisas para a análise concreta da sociedade moderna, aquela que se
engendrou nas entranhas da ordem feudal e se estabeleceu na Europa Ocidental na
transição do século XVIII ao XIX: a sociedade burguesa. De fato, pode-se
circunscrever como o problema central
da pesquisa marxiana a gênese, a consolidação, o desenvolvimento e as condições
de crise da sociedade burguesa, fundada no modo de produção capitalista.
Esta pesquisa, de que resultarão as bases de sua
teoria social, ocupará Marx por cerca de 40 anos, de meados da década de 1840
até a sua morte - e pode- se localizar o seu ponto de arranque nos Manuscritos econômico-filosóficos de
1844 e a sua culminação nos materiais constitutivos d'O capital (Marx, 1994 e 1968-1974). Alicerçando essa pesquisa de
toda uma vida, além do profundo conhecimento que Marx adquiriu em seu trato com
os maiores pensadores da cultura ocidental e de sua ativa participação nos
processos político-revolucionários de sua época, está a sua re-elaboração crítica do acúmulo
intelectual
P. 18
realizado a partir do Renascimento e da Ilustração. Com
efeito, a estruturação da teoria marxiana socorreu-se especialmente de três
linhas-de-força do pensamento moderno: a filosofia alemã, a economia política
inglesa e o socialismo francês (Lenin, 1977, p. 4-27 e 35-39). Numa palavra:
Marx não fez tábula rasa do conhecimento
existente, mas partiu criticamente dele.
Cabe insistir na perspectiva crítica de Marx em face da herança
cultural de que era legatário. Não se trata, como pode parecer a uma visão
vulgar de "crítica", de se posicionar frente ao conhecimento existente
para recusá-lo ou, na melhor das hipóteses, distinguir nele o "bom"
do "mal". Em Marx, a crítica do conhecimento acumulado consiste em
trazer ao exame racional, tornando-os conscientes, os seus fundamentos, os seus condicionamentos e os seus limites - ao mesmo tempo em que se
faz a verificação dos conteúdos desse conhecimento a partir dos processos
históricos reais. É assim que ele trata a filosofia de Hegel, os economistas
políticos ingleses (especialmente Smith e Ricardo) e os socialistas que o precederam
(Owen, Fourier et alii).
Avançando criticamente a partir do conhecimento
acumulado, Marx empreendeu a análise da sociedade burguesa, com o objetivo de
descobrir a sua estrutura
P. 19
e a sua dinâmica. Esta análise, iniciada na segunda
metade dos anos 1840, configura um longo processo de elaboração teórica, no
curso de qual Marx foi progressivamente determinando o método adequado para o
conhecimento veraz, verdadeiro, da realidade social (Mandel, 1968). Isto quer
dizer, simplesmente, que o método de Marx não resulta de descobertas abruptas
ou de intuições geniais - ao contrário, resulta de uma demorada investigação:
de fato, é só depois de quase 15 anos de pesquisas que Marx formula com
precisão os elementos centrais de seu método, formulação que aparece na
"Introdução", redigida em 1857, aos manuscritos que, publicados
postumamente, foram intitulados Elementos
fundamentais para a crítica da economia política. Rascunhos. 1857-1858
(Marx, 1982, p. 3-21)[nota 1]. É nestas poucas páginas que se
encontram sintetizadas as bases do método que viabilizou a análise contida n'O
capital e a fundação da teoria
social de Marx.
Teoria, método e pesquisa
Antes de sinalizar rapidamente o processo
intelectual que surge resumido na "Introdução" referida
P. 20
acima, e mesmo antecipando algo do conteúdo deste texto
de 1857, é preciso esclarecer o significado que teoria tem para Marx.
Para ele, a teoria não se reduz ao exame
sistemático das formas dadas de um objeto, com o pesquisador descrevendo-o
detalhadamente e construindo modelos explicativos para dar conta - à base de
hipóteses que apontam para relações de causa/efeito - de seu movimento visível,
tal como ocorre nos procedimentos da tradição empirista e/ou positivista. E não
é, também, a construção de enunciados discursivos sobre os quais a chamada
comunidade científica pode ou não estabelecer consensos intersubjetivos,
verdadeiros jogos de linguagem ou exercícios e combates retóricos, como querem
alguns pós-modernos (Lyotard, 2008; Santos, 2000, cap. 1).
Para Marx, a teoria é uma modalidade peculiar de
conhecimento, entre outras (como, por exemplo, a arte, o conhecimento prático
da vida cotidiana, o conhecimento mágico-religioso - cf. Marx, 1982, p. 15).
Mas a teoria se distingue de todas essas modalidades e tem especificidades: o
conhecimento teórico é o conhecimento
do objeto - de sua estrutura e dinâmica - tal como ele é em si mesmo, na
sua existência real e efetiva, independentemente dos desejos, das aspirações e
das representações do pesquisador. A
P. 21
teoria é, para Marx, a
reprodução ideal do movimento real do objeto pelo sujeito que pesquisa:
pela teoria, o sujeito reproduz em seu pensamento a estrutura e a dinâmica do
objeto que pesquisa. E esta reprodução (que constitui propriamente o
conhecimento teórico) será tanto mais correta e verdadeira quanto mais fiel o
sujeito for ao objeto. Detenhamo-nos um pouco neste ponto tão importante e
complexo, começando pela própria noção de "ideal".
Ao mencionar a relação de seu método com o de
Hegel, de quem recolheu criticamente a concepção dialética, Marx anotou:
Meu método dialético, por seu
fundamento, difere do método hegeliano, sendo a ele inteiramente oposto. Para
Hegel, o processo do pensamento [...] é o criador do real, e o real é apenas
sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser
humano e por ele interpretado (Marx, 1968, p. 16; itálicos não
originais).
Assim, a teoria é o movimento real do objeto transposto para o cérebro do
pesquisador - é o real reproduzido e
interpretado no plano ideal (do pensamento). Prossigamos: para Marx, o
objeto da pesquisa (no caso, a sociedade burguesa) tem existência objetiva; não
depende do sujeito, do pesquisador,
P. 22
para existir. O objetivo do pesquisador, indo além da
aparência fenomênica, imediata e empírica - por onde necessariamente se inicia
o conhecimento, sendo essa aparência um nível da realidade e, portanto, algo
importante e não descartável é apreender a essência (ou seja: a estrutura e a dinâmica) do objeto. Numa
palavra: o método de pesquisa que
propicia o conhecimento teórico, partindo da aparência, visa alcançar a
essência do objeto[nota 2]. Alcançando a essência do objeto, isto é: capturando a sua
estrutura e dinâmica, por meio de procedimentos analíticos e operando a sua
síntese, o pesquisador a reproduz no plano do pensamento; mediante a pesquisa,
viabilizada pelo método, o pesquisador reproduz, no plano ideal, a essência do
objeto que investigou.
O objeto da pesquisa tem, insista-se, uma
existência objetiva, que independe da consciência do pesquisador. Mas o objeto
de Marx é a sociedade
P. 23
burguesa - um sistema de relações construído pelos homens,
"o produto da ação recíproca dos homens" (Marx, 2009, p. 244). Isto
significa que a relação sujeito/objeto no processo do conhecimento teórico não
é uma relação de externalidade, tal como se dá, por exemplo, na citologia ou na
física; antes, é uma relação em que o sujeito está implicado no objeto. Por
isso mesmo, a pesquisa - e a teoria que dela resulta - da sociedade exclui
qualquer pretensão de "neutralidade", geralmente identificada com
"objetividade" (acerca do debate que, sobre a "objetividade"
se acumulou nas ciências sociais e na tradição marxista, cf. Löwy, 1975, p.
11-36).
Entretanto, essa característica não exclui a objetividade do conhecimento teórico:
a teoria tem uma instância de verificação de sua verdade, instância que é a prática social e histórica. Tomemos um exemplo: da sua análise
do movimento do capital, Marx (1968a, p. 712-827) extraiu a lei geral da acumulação capitalista,
segundo a qual, no modo de produção capitalista, a produção da riqueza social
implica, necessariamente, a reprodução contínua da pobreza (relativa e/ou
absoluta); nos últimos 150 anos, o desenvolvimento das formações sociais
capitalistas somente tem comprovado a correção de sua análise, com a
"questão social" pondo-se e repondo-
P.24
se,
ainda que sob expressões diferenciadas, sem solução de continuidade. E ainda
outro exemplo: analisando o mesmo movimento do capital, Marx (1974, 1974a e
1974b) descobriu a impossibilidade de
o capitalismo existir sem crises econômicas; também, no último século e
meio, a prática social e histórica demonstrou o rigoroso acerto dessa
descoberta. Essas e outras projeções plenamente confirmadas sobre o
desenvolvimento do capitalismo não se devem a qualquer capacidade
"profética" de Marx: devem-se a que sua análise da dinâmica do
capital permitiu-lhe extrair de seu objeto "a lei econômica do movimento
da sociedade moderna" (Marx, 1968, p. 6) - não uma "lei" no
sentido das leis físicas ou das leis sociais durkheimianas "fixas e
imutáveis", mas uma tendência
histórica determinada, que pode ser travada ou contrarrestada por outras
tendências[nota 3].
P. 25
Voltemos à concepção marxiana de teoria: a teoria é
a reprodução, no plano do pensamento, do movimento real do objeto. Esta
reprodução, porém, não é uma espécie de reflexo mecânico, com o pensamento
espelhando a realidade tal como um espelho reflete a imagem que tem diante de
si. Se assim fosse, o papel do sujeito que pesquisa, no processo do
conhecimento, seria meramente passivo. Para Marx, ao contrário, o papel do
sujeito é essencialmente ativo:
precisamente para apreender não a aparência ou a forma dada ao objeto, mas a
sua essência, a sua estrutura e a sua dinâmica (mais exatamente: para
apreendê-lo como um processo), o
sujeito deve ser capaz de mobilizar um máximo de conhecimentos, criticá-los,
revisá-los e deve ser dotado de criatividade e imaginação. O papel do sujeito é
fundamental no processo de
pesquisa. Marx, aliás, caracteriza de modo breve e conciso tal processo: na
investigação, o sujeito "tem de apoderar-se da matéria, em seus
pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e de
perquirir a conexão que há entre elas" (Marx, 1968, p. 16).
Neste processo, os instrumentos e também as técnicas de pesquisa são os mais
variados, desde a análise documental até as formas mais diversas de
P. 26
observação, recolha de dados, quantificação etc.[nota 4] Esses instrumentos e técnicas
são meios de que se vale o pesquisador para "apoderar-se da matéria",
mas não devem ser identificados com o método: instrumentos e técnicas similares
podem servir (e de fato servem), em escala variada, a concepções metodológicas
diferentes. Cabe observar que, no mais de um século decorrido após a morte de
Marx, as ciências sociais desenvolveram um enorme acervo de instrumentos/
técnicas de pesquisa, com alcances diferenciados - e todo pesquisador deve esforçar-se por conhecer este acervo,
apropriar-se dele e dominar a sua utilização.
É só quando está concluída a sua investigação (e é
sempre relevante lembrar que, no domínio científico, toda conclusão é sempre
provisória, sujeita à comprovação, retificação, abandono etc.) que o
pesquisador apresenta, expositivamente, os resultados a que chegou. E Marx, na
sequência imediata da última citação que fizemos, agrega:
Só depois de concluído este trabalho [de
investigação] é que se pode descrever, adequadamente, o movimento real.
P. 27
Se isto se consegue, ficará
espelhada, no plano ideal, a vida da realidade pesquisada (id., ibid.).
Como se vê, para Marx, os pontos de partida são
opostos: na investigação, o pesquisador parte de perguntas, questões; na exposição,
ele já parte dos resultados que obteve na investigação - por isso, diz Marx, "é
mister, sem dúvida, distinguir formalmente o método de exposição do método de
pesquisa" (id., ibid.).
É importante observar que, considerando o conjunto
da sua obra, Marx poucas vezes se deteve explicitamente sobre a questão do
método. Não é casual, de fato, que Marx nunca tenha publicado um texto especificamente
dedicado ao método de pesquisa tomado em si mesmo, como algo autônomo em
relação à teoria ou à própria investigação: a orientação essencial do
pensamento de Marx era de natureza mitológica
e não epistemológica (Lukács, 1979): por isso, o seu interesse não incidia
sobre um abstrato "como conhecer", mas sobre "como conhecer um
objeto real e determinado" - Lenin, aliás, sustentava, em 1920, que o
espírito do legado de Marx consistia na "análise concreta de uma situação
concreta". O mesmo Lenin, uns poucos anos antes, já compreendera que a
Marx não interessava elaborar uma ciência da lógica (como o fizera Hegel): importava-lhe a lógica de um objeto determinado
P. 28
- descobrir esta lógica consiste em reproduzir idealmente (teoricamente)
a estrutura e a dinâmica deste objeto;
é lapidar a conclusão lenineana: "[...] Marx não deixou uma Lógica, deixou a lógica d'O capital" (Lenin, 1989, p. 284).
As formulações teórico-metodológicas
Sublinhei, há pouco, que o método de Marx não
resulta de operações repentinas, de intuições geniais ou de inspirações
iluminadas. Antes, é o produto de uma longa elaboração teórico-científica,
amadurecida no curso de sucessivas aproximações ao seu objeto. Vejamos, muito
esquematicamente, os principais passos dessa elaboração.
É no segundo terço dos anos 1840 que se encontram
as formulações teórico‑metodológicas iniciais de Marx. Densas reflexões
materialistas - devidas à influência de Feuerbach - já surgem, nítidas, numa
crítica à filosofia do direito de Hegel, redigida em dezembro de 1843/janeiro
de 1844 e logo publicada[nota 5]. É especialmente no curso de
1844, quando começa
P. 29
a se deslocar da crítica filosófica para a crítica
da economia política - como se verifica nos Manuscritos econômico-filosófico de 1844, só tornados públicos
em 1932 (Marx, 1994) que essas reflexões ganham uma articulação claramente
dialética. Não é por acaso que, paralelamente à redação desses Manuscritos..., Marx retorne à
hegeliana Fenomenologia do Espírito,
demonstrando o domínio que já possui das suas categorias (Marx, 1994, p.
155-161). Se a leitura dos Manuscritos...
revela um conhecimento ainda insuficiente da economia política, isto não
compromete a segurança do autor no manuseio da dialética, manuseio que se
aprofunda na sequência do estabelecimento da relação pessoal com Engels - no
livro que marca o começo da sua colaboração intelectual, A sagrada família ou A crítica da crítica
crítica, de 1845 (Marx-Engels, 2003), expressão do seu confronto com
pensadores alemães contemporâneos. Em várias passagens, os dois jovens autores
apontam a perspectiva teórica a partir da qual criticam filósofos com os quais,
até pouco tempo antes, mantinham boas relações intelectuais.
Porém, é na obra a que se dedicam em seguida, A ideologia alemã (escrita em
1845/1846, mas só publicada em 1932), que surge a primeira formulação mais precisa
das suas concepções. Marx e Engels esclarecem
P. 30
que as suas análises têm pressupostos, mas se trata
de pressupostos reais:
constituem-nos "os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais
de vida, tanto aquelas por eles já encontradas como as produzidas por sua
própria ação" (Marx-Engels, 2007, p. 86-87)[nota
6]. E escrevem que, por isso mesmo,
nas suas análises,
não se parte daquilo que os homens
dizem, imaginam ou representam, tampouco [d]os homens pensados, imaginados ou
representados para, a partir daí, chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos [...],
do seu processo de vida real (id., ibid., p. 94; itálicos não
originais).
Na base dessas idéias está um argumento essencial:
Os homens são os produtores de
suas representações, de suas idéias e assim por diante, mas os homens reais,
ativos, tal como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas
forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde [...]. A consciência
não
P. 31
pode ser jamais outra coisa do que o
ser consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real. [...] Não é a consciência que determina a vida, mas a
vida que determina a consciência (id., ibid.; itálicos não originais).
Extraída da análise da realidade histórica e
expressamente materialista, é esta determinação das relações entre o ser e a
consciência dos homens em sociedade que permitirá a Marx avançar, na segunda
metade dos anos 1840, na sua análise da sociedade burguesa. Mas ela se insere
na concepção que Marx e Engels já alcançaram neste período acerca da história,
da sociedade e da cultura e que será desenvolvida e aprofundada nos anos
seguintes. Para ambos, o ser social
- e a sociabilidade resulta elementarmente do trabalho, que constituirá o modelo da práxis - é um processo, movimento que se dinamiza por contradições, cuja superação o conduz
a patamares de crescente complexidade, nos quais novas contradições impulsionam a outras superações. Por estes anos,
como Engels o recordará bem mais tarde, já estavam - ele e Marx - de posse de
"uma grande ideia fundamental", que extraíram de Hegel: a ideia
"de que não se pode conceber o mundo como um conjunto de coisas acabadas, mas como um conjunto
de processos"
(Marx-Engels, 1963, v. 3, p. 195).
P. 32
É a partir desta "ideia fundamental" -
prosseguirá Engels noutra oportunidade – que
se concebe o mundo da natureza, da
história e do espírito como um processo, isto é, como um mundo sujeito a
constante mudança, transformações e desenvolvimento constante, procurando
também destacar a íntima conexão que preside este processo de desenvolvimento e
mudança. Encarada sob este aspecto, a história da humanidade já não se
apresentava como um caos [...], mas, ao contrário, se apresentava como o
desenvolvimento da própria humanidade, que incumbia ao pensamento a tarefa de
seguir [...] até conseguir descobrir as leis internas, que regem tudo o que à
primeira vista se pudesse apresentar como obra do acaso (Engels, 1979, p. 22).
À medida que Marx se desloca da crítica da
filosofia para a crítica da economia política, suas idéias ganham crescente
elaboração. É o que se verifica no primeiro texto em que desenvolve com mais
rigor a crítica da economia política - o livro Miséria da filosofia (1847), de polêmica com o socialista
francês P.-J. Proudhon aliás, logo que lê a obra de Proudhon (Filosofia da miséria, 1846) e antes
mesmo de escrever sua réplica, Marx observa, em uma carta, que o fracasso
teórico desse pensador deve-se a que ele "não
concebe nossas instituições sociais como
P. 33
produtos históricos e não compreende nem a sua origem nem o
seu desenvolvimento" (Marx, 2009, p. 250). Na mesma carta, Marx esclarece
como já concebe a estrutura do que constituirá o objeto de pesquisa de toda a
sua vida (precisamente do qual investigará a "origem" e o
"desenvolvimento"):
O que é a sociedade, qualquer que
seja a sua forma? O produto da ação recíproca dos homens. Os homens podem
escolher, livremente, esta ou aquela forma social? Nada disso. A um determinado
estágio de desenvolvimento das faculdades produtivas dos homens corresponde
determinada forma de comércio e de consumo. A determinadas fases de
desenvolvimento da produção, do comércio e do consumo correspondem determinadas
formas de constituição social, determinada organização da família, das ordens
ou das classes; numa palavra, uma determinada sociedade civil. A uma
determinada sociedade civil corresponde um determinado estado político, que não
é mais que a expressão oficial da sociedade civil. [...] É
supérfluo acrescentar que os homens não são livres para escolher as suas forças produtivas - base de toda
a sua história pois toda força produtiva é uma força adquirida, produto de uma
atividade anterior. Portanto, as forças produtivas são o resultado da energia
prática dos homens, mas essa mesma energia é circunscrita pelas condições em
que os homens se acham colocados, pelas forças produtivas
P. 34
já adquiridas, pela forma social
anterior, que não foi criada por eles e é produto da geração precedente. O
simples fato de cada geração posterior deparar-se com forças produtivas
adquiridas pela geração precedente [...] cria na história dos homens uma
conexão, cria uma historiada humanidade [...]. As suas [dos homens] relações
materiais formam a base de todas as suas relações (id., p. 245).
E Marx avança a indicação que, nos anos seguintes,
fundamentará persuasivamente:
[...] Os homens, ao desenvolverem
as suas faculdades produtivas, isto é, vivendo, desenvolvem certas relações
entre si, e [..] o modo destas relações muda necessariamente com a modificação
e o desenvolvimento daquelas faculdades produtivas (id.. p. 250).
Todas estas idéias comparecem na Miséria da filosofia e são basilares
para a compreensão do método de Marx. Observem-se duas passagens do livro:
As relações sociais estão
intimamente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas,
os homens transformam o seu modo de produção e, ao transformá-lo, alterando a
maneira de ganhar a sua vida, eles transformam todas as suas relações sociais.
O moinho movido pelo braço humano nos dá a sociedade com o suserano; o moinho a
vapor dá-nos a sociedade com o capitalista industrial (id., p. 125).
P. 35
Os mesmos homens que
estabeleceram as relações sociais de acordo com a sua produtividade material
produzem, também, os princípios, as idéias, as categorias de acordo com as suas
relações sociais. Assim, essas idéias, essas categorias são tão pouco eternas
quanto as relações que exprimem. Elas são produtos históricos e transitórios (id., p. 126).
É ainda neste texto que Marx avança duas idéias
fundamentais, que só se desdobrarão com mais elementos cerca de uma década
depois. A primeira diz respeito ainda às categorias econômicas; escreve ele:
"As categorias econômicas são expressões teóricas, abstrações das relações
sociais de produção" (id.,
p. 125). E mais: "As relações de produção de qualquer sociedade constituem
um todo" (id., p. 126).
Trata- se, na verdade, de duas determinações teóricas que constituirão núcleos
básicos do método de pesquisa de Marx, e a elas voltaremos logo adiante.
Todas estas concepções e idéias, fundadas nos
estudos históricos e nas análises da realidade que acumula a partir de meados
dos anos 1840[nota 7] - ademais das experiências
políticas vividas no curso da
P. 36
revolução de
1848 — vão adquirir um significado ainda maior no período que se inicia com o
exílio de Marx em Londres (1850). Especialmente a partir de 1852, ele se dedica
obsessivamente ao estudo da sociedade burguesa: analisa documentação histó
rica, percorre praticamente toda a bibliografia já produzida da economia
política, acompanha os desenvolvimentos da economia mundial, leva em conta os
avanços científicos que rebatem na indústria e nas comunicações e considera as
manifestações das classes fundamentais (burguesia e proletariado) em face da
atualidade. Vivendo cm Londres, então capital do país capitalista mais
desenvolvido, de um império de dimensões mundiais, sede do maior centro
financeiro (a City), tendo à
sua disposição a imprensa mais informada da economia e a mais completa
biblioteca da época (a do British
Museum), Marx pode enfim determinar precisamente, em sua plena
maturidade, o seu objeto de estudo e o seu método de investigação. É, pois, ao
fim de quase 15 anos de pesquisa que ele escreve, entre agosto e setembro de
1857, a célebre "Introdução", onde a sua concepção teórico-metodológica
surge nítida[nota 8].
P. 37
Ele inicia a "Introdução"
delimitando com clareza o seu objeto de investigação: a produção material, que só pode ser produção de "indivíduos
produzindo em sociedade" - e, com isso, Marx descarta figuras isoladas de
indivíduos nas atividades econômicas. De fato, "quando se trata [...] de
produção, trata-se da produção em um grau determinado do desenvolvimento
social, da produção dos indivíduos sociais". Por isto mesmo, Marx
considera que a "produção em geral" é uma abstração, que denota
apenas um fenômeno comum a todas as épocas históricas: o fenômeno de, em
qualquer época, a produção implicar sempre um mesmo sujeito (a humanidade, a
sociedade) e um mesmo objeto (a natureza)[nota 9]. Este fenômeno confere unidade à
história da humanidade, mas unidade
não é o mesmo que identidade: é
preciso distinguir "as determinações que valem para a produção em
geral" daquelas que dizem respeito a certa época; do contrário, perde se a
historicidade na análise, e às
categorias econômicas
P. 38
atribuem-se vigência e valor eternos. Destarte, e
consequentemente, Marx especifica que quer estudar uma determinada forma
histórica de produção material: a "produção burguesa moderna".
Marx está convencido, em função dos estudos
históricos que já realizara, de que "a sociedade burguesa é a organização
histórica mais desenvolvida, mais diferenciada da produção". E deixa bem
claro que o conhecimento rigoroso da sua produção material não basta para esclarecer a riqueza
das relações sociais que se objetivam no marco de uma sociedade assim complexa;
por exemplo, no trato da cultura, Marx enfatiza a existência de uma
"relação desigual do desenvolvimento da produção material face à produção
artística" e assinala ainda a dificuldade para clarificar "de que
modo as relações de produção, como relações jurídicas, seguem um
desenvolvimento desigual". Mas - por todo o acúmulo teórico que realizou
com suas pesquisas anteriores - ele está igualmente convencido de que o passo necessário e indispensável para
apreender a inteira riqueza dessas relações sociais consiste na plena
compreensão da produção burguesa moderna. Sem esta compreensão, será impossível
uma teoria social que permita
oferecer um conhecimento verdadeiro da
sociedade burguesa como totalidade (incluindo, pois, o conhecimento -
para
P. 39
além da sua organização econômica - das suas
instituições sociais e políticas e da cultura). Para elaborar a reprodução
ideal (a teoria) do seu objeto real (que é a sociedade burguesa), Marx
descobriu que o procedimento fundante
é a análise do modo pelo qual nele se produz a riqueza material.
A questão da riqueza material - ou, mais exata -
mente, das condições materiais da vida social porém, não envolve apenas a produção,
mas articula ainda a distribuição, a troca (e a circulação, que é "a troca
considerada em sua totalidade") e o consumo. Por que, então, começar pela
produção? A argumentação de Marx, baseada no aprofundamento de seus estudos
anteriores e consolidada no exílio londrino, depois de demonstrar que a
produção é, em parte, consumo e este, parcialmente, é produção, e também depois
de relacioná-los à distribuição e à circulação, leva ao seguinte resultado:
estes momentos (produção, distribuição, troca, consumo) não são idênticos, mas
todos "são elementos de uma totalidade, diferenças dentro de uma mesma
unidade". Mas, sem prejuízo da interação entre esses elementos, é
dominante o momento da produção:
A produção se expande tanto a si
mesma [..,] como se alastra aos demais momentos. O
processo começa de novo sempre a partir
dela. Que a troca e o consumo não
P. 40
possam ser o elemento predominante,
compreende se por si mesmo. O mesmo acontece com a distribuição [...]. Uma
[forma] determinada da produção determina, pois, [formas] determinadas do
consumo, da distribuição, da troca, assim como relações determinadas desses diferentes fatores entre si.
Uma teoria social da sociedade burguesa, portanto, tem que possuir como fundamento a
análise teórica da produção das condições materiais da vida social. Este ponto
de partida não expressa um juízo ou uma preferência pessoais do pesquisador:
ele é uma exigência que decorre do próprio objeto de pesquisa - sua estrutura e
dinâmica só serão reproduzidas com veracidade no plano ideal a partir desse
fundamento; o pesquisador só será fiel ao objeto se atender a tal imperativo (é
evidente que o pesquisador é livre para encontrar e explorar outras vias de
acesso ao objeto que é a sociedade e pode, inclusive, chegar a resultados
interessantes; entretanto, tais resultados nunca permitirão articular uma
teoria social que dê contados níveis decisivos e da dinâmica fundamental da
sociedade burguesa)[nota 10].
P. 41
Uma vez determinado o seu objeto, põe-se a Marx a
questão de como conhecê-lo - põe-se a questão do método. Aqui, nada melhor que
dar a palavra ao próprio Marx:
Quando estudamos um dado país do
ponto de vista da Economia Política, começamos por sua população, sua divisão
em classes, sua repartição entre cidades e campo [...]; os diferentes ramos da
produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços
das mercadorias etc. Parece que o correto é começar pelo real e pelo concreto,
que são a pressuposição prévia e efetiva; assim, em Economia, por exemplo,
começar-se-ia pela população, que é a base e o sujeito do ato social de
produção como um todo. No entanto, graças a uma observação mais atenta, tomamos
conhecimento de que isto é falso. A população é uma abstração se desprezarmos,
por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado, essas classes são uma
palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por
exemplo: o trabalho assalariado, o capital etc. Estes supõem
a troca, a divisão do trabalho,
P. 42
os preços etc. O capital, por
exemplo, sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem o preço
etc. não é nada. Assim, se começássemos pela população, teríamos uma
representação caótica do todo e, através de uma determinação mais precisa,
através de uma análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do
concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até
atingirmos determinações as mais simples.
Como bom materialista, Marx distingue claramente o
que é da ordem da realidade, do objeto, do que é da ordem do pensamento (o
conhecimento operado pelo sujeito): começa-se "pelo real e pelo
concreto", que aparecem como dados;
pela análise, um e outro elementos são abstraídos e, progressivamente, com o
avanço da análise, chega-se a conceitos, a abstrações que remetem a
determinações as mais simples. Este foi o caminho ou, se se quiser, o método
[...] historicamente seguido pela
nascente economia. Os economistas do século XVII, por exemplo, começam sempre
pelo todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados etc., mas
terminam sempre por descobrir, por meio da análise, certo número de relações
gerais abstratas que são determinantes, tais como a divisão do trabalho, o
dinheiro, o valor etc.
P. 43
Marx considera que este procedimento analítico foi
necessário na emergência da economia política, mas está longe de ser suficiente
para reproduzir idealmente (teoricamente) o "real" e o
"concreto". Com efeito, depois de alcançar aquelas "determinações
mais simples", "teríamos que voltar a fazer a viagem de modo inverso,
até dar de novo com a população, mas desta vez não como uma representação
caótica de um todo, porém como uma rica totalidade de determinações e relações
diversas".
É esta "viagem de volta" que caracteriza,
segundo Marx, o método adequado para a elaboração teórica. Ele esclarece:
O último método é manifestamente
o método cientificamente exato. O concreto é concreto porque é síntese de
muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso, o concreto aparece
no pensamento como o processo de síntese, como resultado, não como ponto de
partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo [...]. No primeiro método, a representação plena
volatiza-se em determinações abstratas; no segundo, as determinações abstratas
conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento (itálicos não
originais).
Deve-se distinguir, a esta altura, para alcançar a
inteira compreensão do método que Marx considera "cientificamente
exato", o sentido de "abstração" e
P. 44
"abstrato". A abstração é a
capacidade intelectiva que permite extrair de sua contextualidade determinada
(de uma totalidade) um elemento, isolá-lo, examiná-lo; é um procedimento
intelectual sem o qual a análise é inviável - aliás, no domínio do estudo da
sociedade, o próprio Marx insistiu com força em que a abstração é um recurso
indispensável para o pesquisador[nota 11]. A abstração, possibilitando a
análise, retira do elemento abstraído as suas determinações mais concretas, até
atingir "determinações as mais simples". Neste nível, o elemento
abstraído torna-se "abstrato" - precisamente o que não é na
totalidade de que foi extraído: nela, ele se concretiza porquanto está saturado
de "muitas determinações". A realidade é concreta exatamente por
isso, por ser "a síntese de muitas determinações", a "unidade do
diverso" que é própria de toda totalidade. O conhecimento teórico é, nesta
medida, para Marx, o conhecimento do concreto, que constitui a realidade, mas
que não se oferece imediatamente ao pensamento: deve ser reproduzido por este e
só "a viagem de modo inverso" permite esta reprodução. Já salientamos
que, em Marx, há uma contínua preocupação em distinguir a
P. 45
esfera do ser da esfera do pensamento; o concreto a que
chega o pensamento pelo método que Marx considera "dentificamente
exato" (o "concreto pensado") é um produto do pensamento que
realiza "a viagem de modo inverso". Marx não hesita em qualificar
este método como aquele "que consiste em elevar-se do abstrato ao
concreto", "único modo" pelo qual "o cérebro pensante"
"se apropria do mundo".
Cabe também precisar o sentido das
"determinações": determinações são traços pertinentes aos elementos
constitutivos da realidade; nas palavras de um analista, para Marx, a
determinação é um "momento essencial constitutivo do objeto" (Dussel,
1985, p. 32). Por isso, o conhecimento concreto do objeto é o conhecimento das
suas múltiplas determinações - tanto mais se reproduzem as determinações de um
objeto, tanto mais o pensamento reproduz a sua riqueza (concreção) real. As
"determinações as mais simples" estão postas no nível da
universalidade; na imediaticidade do real, elas mostram-se como singularidades
- mas o conhecimento do concreto opera-se envolvendo universalidade,
singularidade e particularidade[nota 12].
P. 46
Ora, o objetivo da pesquisa
marxiana é, expressamente, conhecer "as categorias que constituem a
articulação interna da sociedade burguesa". E o que são
"categorias", das quais Marx cita inúmeras (trabalho, valor, capital
etc.)? As categorias, diz ele, "exprimem [...] formas de modo de ser,
determinações de existência, frequentemente aspectos isolados de [uma]
sociedade determinada" - ou seja: elas são objetivas, reais (pertencem à
ordem do ser - são categorias antológicas);
mediante procedimentos intelectivos (basicamente, mediante a abstração), o
pesquisador as reproduz teoricamente (e, assim, também pertencem à ordem do
pensamento - são categorias reflexivas).
Por isso mesmo, tanto real quanto teoricamente, as categorias são históricas e transitórias: as categorias próprias da sociedade burguesa só
têm validez plena no seu marco (um exemplo: trabalho assalariado). E, uma vez
que, como vimos, para Marx "a sociedade burguesa é a organização histórica
mais desenvolvida, mais diferenciada da produção" - vale dizer: a mais complexa de todas as organizações da
produção até hoje conhecida -, é nela que existe realmente o maior
desenvolvimento e a maior diferenciação categorial. Logo, a sua reprodução
ideal (a sua teoria) implica a apreensão intelectiva dessa riqueza categorial
(o que
P. 47
significa dizer que a teoria da sociedade burguesa
deve ser também rica em categorias[nota 13]).
Depois de anotar que a sociedade burguesa apresenta
a mais desenvolvida organização da produção, Marx, numa argumentação que
interdita qualquer procedimento de natureza positivista, observa:
As categorias que exprimem suas
[da sociedade burguesa) relações, a compreensão de sua própria articulação,
permitem penetrar na articulação e nas relações de produção de todas as formas
de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acha edificada e
cujos vestígios, não ultrapassados ainda, levam de arrastão, desenvolvendo tudo
que fora antes apenas indicado e que toma assim a sua significação etc. A
anatomia do homem é a chave para a anatomia do macaco. O que nas espécies
animais inferiores indica uma forma superior não pode ser compreendido [...]
senão quando se conhece a forma superior. A economia burguesa fornece a chave
da economia da antiguidade etc.
Esta argumentação inverte a vulgar proposição
positivista de que "o mais simples explica o mais
P. 48
complexo": somente quando uma forma mais complexa se
desenvolve e é conhecida é que se pode compreender inteiramente o menos
complexo - é o presente, pois, que esclarece o passado. Na sociedade burguesa,
a categoria dinheiro (eis um
exemplo do próprio Marx) encontra-se muito mais desenvolvida do que na Antiguidade
- onde funcionava como meio de troca. Se a analisássemos apenas como meio de
troca, não teríamos condições de detectar as suas outras possíveis funções;
quando a analisamos na sociedade burguesa (onde, ademais de meio de troca,
opera como equivalente geral, medida de valor, meio de acumulação, meio de
pagamento universal), seu pleno desenvolvimento ilumina o seu processo
anterior.
Obviamente, afirmando-se que o presente ilumina o
passado (ou, noutras palavras: que a forma mais complexa permite compreender
aquilo que, numa forma menos complexa, indica potencialidade de ulterior
desenvolvimento), não se descura a necessidade de conhecer a gênese histórica
de uma categoria ou processo - tal conhecimento é absolutamente necessário. Mas
dele não decorre o conhecimento da sua relevância no presente - sua estrutura e
sua função atuais. Ambos, estrutura e função, podem apresentar características
inexisten-
P. 49
tes ou atrofiadas no momento da sua emergência
histórica. Assim, as condições da gênese histórica não determinam o ulterior
desenvolvimento de uma categoria. Por isso mesmo, o estudo das categorias deve
conjugar a análise diacrônica (da gênese e desenvolvimento) com a análise
sincrônica (sua estrutura e função na organização atual)[nota 14].
Entretanto, retornemos à última citação de Marx.
Adicionalmente, e dando consequência à observação que acabamos de fazer, ele
adverte: se a economia burguesa fornece a chave da economia da Antiguidade,
isto não significa a inexistência de diferenças históricas - as categorias não
são eternas, são historicamente determinadas e esta determinação se verifica na
articulação específica que têm nas distintas formas de organização da produção.
Esta é a conclusão de Marx: no estudo da sociedade burguesa,
[...] seria, pois, impraticável e
errôneo colocar as categorias econômicas na ordem segundo a qual tiveram
historicamente uma ação determinante. [...] Não se
trata da relação que as relações econômicas assumem historicamente na
P. 50
sucessão das diferentes formas de
sociedade. [...] Trata- se da sua hierarquia no
interior da moderna sociedade burguesa.
E foi neste sentido que se desenvolveu a pesquisa
de Marx: encontrar a articulação específica que a organização burguesa,
organização da produção, confere às (suas) categorias econômicas. Quando
publicou, dois anos depois que escreveu a "Introdução" de que nos
ocupamos aqui, os então mais recentes resultados das suas investigações
sistemáticas - orientadas pelas indicações teórico-metodológicas avançadas
nesta "Introdução" - no âmbito da crítica da economia política, Marx
sintetizou, numa passagem célebre, o fio condutor dos seus estudos. A passagem
comparece no prefácio a Para a crítica
da economia política (1859) e é de citação imprescindível, uma vez que
sumaria as conclusões daquele mencionado itinerário investigativo de
praticamente 15 anos:
Na produção social da própria
vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes da
sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa
determinada de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A
totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da
sociedade,
P. 51
a base real sobre a qual se
levanta uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas
sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material
condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a
consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser
social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu
desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em
contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é do que
a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais
aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças
produtivas essas relações se transformam em seus grilhões. Sobrevêm então uma
época de revolução social. Com a transformação da base econômica, toda a enorme
superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez (Marx, 1982, p. 25).
O método de Marx
O leitor que nos acompanhou até aqui estará talvez
preocupado e, com certeza, não lhe reduz a preocupação a epígrafe que, com
bastante cuidado, escolhemos para encimar este texto - "todo começo é
difícil em qualquer ciência" -, extraída exatamente d'O capital (Marx, 1968, p. 4). É que não
lhe oferece
P. 52
mos, em nome de Marx, um conjunto de regras para
orientar a pesquisa; também não colocamos à sua disposição um rol de definições
para dirigir a investigação. Nestas poucas páginas, apenas sumariamos - e de
forma muito esquemática: só apresentamos uma
nota introdutória à problemática metodológica de Marx - as principais
aproximações marxianas à questão do método de pesquisa. E devemos justificar as
razões deste procedimento.
Não oferecemos ao leitor um conjunto de regras
porque, para Marx, o método não é um conjunto de regras formais que se
"aplicam" a um objeto que foi recortado para uma investigação
determinada nem, menos ainda, um conjunto de regras que o sujeito que pesquisa
escolhe, conforme a sua vontade, para "enquadrar" o seu objeto de
investigação. Recordemos a passagem de Lenin que citamos: Marx não nos entregou
uma lógica, deu-nos a lógica d'O capital.
Isto quer dizer que Marx não nos apresentou o que "pensava" sobre o
capital, a partir de um sistema de categorias previamente elaboradas e
ordenadas conforme operações intelectivas: ele (nos) descobriu a estrutura e a
dinâmica reais do capital; não
lhe "atribuiu" ou "imputou" uma lógica: extraiu da
efetividade do movimento do capital a sua
(própria, imanente) lógica -
numa palavra,
P. 53
deu-nos a teoria do capital: a reprodução ideal do seu movimento real[nota 15].
E para operar esta reprodução, ele tratou de ser fiel ao objeto: é a estrutura e a
dinâmica do objeto que comandam os procedimentos do pesquisador. O método
implica, pois, para Marx, uma determinada posição (perspectiva) do sujeito que pesquisa: aquela em que se
põe o pesquisador para, na sua relação com o objeto, extrair dele as suas
múltiplas determinações.
Também não oferecemos definições ao leitor. Porque
procede pela descoberta das determinações, e porque, quanto mais avança na
pesquisa, mais descobre determinações - conhecer teoricamente é (para usar uma
expressão cara ao Professor Florestan Fernandes) saturar o objeto pensado com as suas determinações concretas
Marx não opera com definições. Na "viagem em sentido inverso", as
"abstrações mais tênues" e as "determinações as
P. 54
mais simples" vão sendo carregadas das relações e
das dimensões que objetivamente possuem e devem adquirir para reproduzir (no
plano do pensamento) as múltiplas determinações que constituem o concreto real.
Mas, sobretudo, procedemos aqui com o cuidado de
manter a indissociável conexão que
existe em Marx entre elaboração teórica e formulação metodológica. Os
pressupostos desenvolvidos ao longo dos anos 1840 encaminham elaborações
teóricas que são refundidas, revisadas, aprofundadas etc. no trato do material
histórico-social e que rebatem nas propostas metodológicas; os estudos dos anos
1850, orientados pelas formulações metodológicas já alcançadas, promovem
avanços teóricos e estes redimensionam exigências metodológicas. A formulação
da "Introdução" de 1857 é, vista no processo do pensamento de Marx,
um ponto de chegada e um ponto de partida. É um ponto de chegada, na medida em
que resulta de todo o trato teórico anterior e, pois, contém uma adequação da
posição (perspectiva) do pesquisador às exigências do objeto; é um ponto de
partida, porque assinala um novo tratamento do objeto - que vai comparecer nos Elementos fundamentais para a crítica da
economia política. Rascunhos. 1857-1858. Este novo tratamento
P. 55
teórico, por sua vez, implica uma depuração ainda maior da
formulação metodológica - e ambos, tratamento teórico e formulação
metodológica, que constituem uma unidade, surgirão, límpidos, n'O capital. A indissociável conexão que
mencionamos impede uma abordagem que, na obra de Marx, autonomize o método em
face da teoria: não é possível, senão ao preço de uma adulteração do
pensamento marxiano, analisar o método sem a necessária referência teórica e,
igualmente, a teoria social de Marx torna-se ininteligível sem a consideração
de seu método. Como corretamente afirmou Goldmann (1985, p. 7), no pensamento
que se apoia na perspectiva da totalidade, a que me referirei a seguir, é
ilegítima
uma separação rigorosa entre o
método e a investigação concreta, que são as duas faces da mesma moeda. De
fato, parece certo que o método só se encontra na própria investigação e que
esta só pode ser válida e frutífera na medida em que toma consciência,
progressivamente, da natureza do seu próprio avanço e das condições que lhe
permitem avançar.
E é nesta conexão que encontramos plenamente
articuladas três categorias - de novo: teórico-metodológicas - que nos parecem
nuclear a concepção teórico-metodológica de Marx, tal como esta surge
P. 56
nas elaborações de e posteriores a 1857 (ainda que
lastreadas em sua produção anterior). Trata-se das categorias de totalidade, de contradição e de mediação (Marcuse, 1969; Lukács,
1970, 1974 e 1979 e Barata- Moura, 1977).
Para Marx, a sociedade burguesa é uma totalidade concreta. Não é um
"todo" constituído por "partes" funcionalmente integradas.
Antes, é uma totalidade concreta inclusiva e macroscópica, de máxima
complexidade, constituída por totalidades de menor complexidade. Nenhuma dessas
totalidades é "simples" - o que as distingue é o seu grau de
complexidade (é a partir desta verificação que, para retomar livremente uma
expressão lukacsiana, a realidade da sociedade burguesa pode ser apreendida
como um complexo constituído por
complexos). E se há totalidades mais determinantes que outras (já vimos,
por exemplo, que, na produção das condições materiais da vida social, a
produção determina o consumo), elas se distinguem pela legalidade que as rege:
as tendências operantes numa totalidade lhe são peculiares e não podem ser
transladadas diretamente a outras totalidades. Se assim fosse, a totalidade
concreta que é a sociedade burguesa seria uma totalidade amorfa - e o seu estudo nos revela
que se trata de uma totalidade estruturada
P. 57
e articulada. Cabe à análise de cada um dos complexos
constitutivos das totalidades esclarecer as tendências que operam
especificamente em cada uma delas.
Mas a totalidade concreta e articulada que é a
sociedade burguesa é uma totalidade
dinâmica - seu movimento resulta do caráter contraditório de todas as
totalidades que compõem a totalidade inclusiva e macroscópica. Sem as
contradições, as totalidades seriam totalidades
inertes, mortas - e o que a análise registra é precisamente a sua
contínua transformação. A natureza dessas contradições, seus ritmos, as
condições de seus limites, controles e soluções dependem da estrutura de cada
totalidade - e, novamente, não há fórmulas/formas apriorísticas para
determiná-las: também cabe à pesquisa descobri-las.
Enfim, uma questão crucial reside em descobrir as relações entre os processos
ocorrentes nas totalidades constitutivas tomadas na sua diversidade e entre
elas e a totalidade inclusiva que é a sociedade burguesa. Tais relações nunca
são diretas; elas são mediadas
não apenas pelos distintos níveis de complexidade, mas, sobretudo, pela
estrutura peculiar de cada totalidade. Sem os sistemas de mediações (internas e externas) que articulam tais
totalidades, a totalidade concreta que é a sociedade burguesa seria
P. 58
uma totalidade indiferenciada - e a indiferenciação cancelaria o caráter do
concreto, já determinado como "unidade do diverso"[nota 16].
Articulando estas três categorias nucleares - a
totalidade, a contradição e a mediação -, Marx descobriu a perspectiva
metodológica que lhe propiciou o erguimento do seu edifício teórico. Ao nos
oferecer o exaustivo estudo da "produção burguesa", ele nos legou a
base necessária, indispensável, para a teoria social. Se, em inúmeros passos do
conjunto da sua obra, Marx foi muito além daquele estudo,
P. 59
fornecendo
fundamentais determinações acerca de outras das totalidades constitutivas da
sociedade burguesa, o fato é que sua teoria social permanece em construção - e,
em todos os esforços exitosos operados nesta construção, o que se constata é a
fidelidade à perspectiva metodológica que acabamos de esboçar. É nesta
fidelidade, aliás, que reside o que, num estudo célebre, Lukács (1974, p. 15)
designou como ortodoxia em
matéria de marxismo.
P. 60
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Página notas de rodapé
Nota 1, página 19: No
momento em que escrevo, tenho informações de que este texto seminal de Marx, em
tradução de Mário Duayer, será publicado em breve, numa co-edição Boitempo (S. Paulo)/Editora UFRJ (Rio de Janeiro).
Nota 2, página 22: Para
Marx, como para todos os pensadores dialéticos, a distinção entre aparência e
essência é primordial; com efeito/toda ciência seria supérflua se a forma de
manifestação [a aparência] e a essência das coisas coincidissem
imediatamente" (Marx, 1974b, p. 939); mais ainda: "As verdades
científicas serão sempre paradoxais se julgadas pela experiência de todos os
dias, a qual somente capta a aparência enganadora das coisas" (Marx, 1982,
p. 158). Por isso mesmo, para Marx, não cabe ao cientista "olhar",
"mirar" o seu objeto - o "olhar" é muito próprio dos
pós-modernos, cuja epistemologia "suspeita da distinção entre aparência e
realidade" (Santos, 1995, p. 331).
Nota 3, página 24: No
posfácio à segunda edição (1873) d'O capital,
Marx cita passagens de um crítico de sua obra que considera ter apreendido
corretamente o seu método de pesquisa, contrapondo-o aos "velhos
economistas [que] não compreenderam a natureza das leis econômicas porque as
equipararam às leis da física e da química"; ora, "é isto o que Marx contesta. [...] Cada
período histórico, na sua opinião, possui suas próprias leis" (Marx, 1968,
p. 15). De fato, Marx escrevera n'O capital,
a propósito das "leis da população": "[...] Todo período
histórico tem suas próprias leis [...], válidas dentro de limites históricos.
Uma lei abstrata da população só existe para plantas e animais e apenas na
medida em que esteja excluída a ação humana" (Marx, 1968a, p. 733).
Página notas de rodapé
Nota 4, página 26: O
próprio Marx recorreu à utilização de distintas técnicas de pesquisa (hoje
caracterizadas como análise bibliográfica e documental, análise de conteúdo,
observação sistemática e participante, entrevistas, instrumentos quantitativos
etc.); conhece-se, inclusive, um minucioso questionário que elaborou, disponível
em Thiollent (1986).
Nota 5, página 28:
Trata-se do ensaio Crítica da
filosofia do direito de Hegel. Introdução, que não deve ser confundido
com o manuscrito de 1843, conhecido como Crítica
da filosofia do direito de Hegel, Manuscrito de Kreuznach, Manuscrito de 1843
etc. e só publicado em 1927 - ambos estão disponíveis em Marx (2005).
Nota 6, página 30:
Observe-se nesta formulação a antecipação de uma passagem célebre d'O 18 brumário de Luís Bonaparte, na
qual os homens são tomados como, simultaneamente, autores e atores da história:
"Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não
a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se
defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado" (Marx, 1969,
p. 17). A mesma linha de argumentação comparecerá na crítica de Marx a
Proudhon, como o leitor verificará numa
citação que se terá a seguir.
Nota 7, página 35: Não
se esqueça que Marx, de 1848 até o fim da vida, foi um permanente
"analista de conjunturas" (históricas, político-econômicas e
sociais). As incontáveis análises que ele produziu - geralmente publicadas em
jornais e revistas - contribuíram em boa medida para o seu acúmulo teórico. Para exemplos dessas análises, cf. Marx
(1969, 1986 e 1987).
Página notas de rodapé
Nota 8, página 36:
Neste e nos seguintes parágrafos não farei a remissão às páginas donde se
extraem as citações de Marx, desde que retiradas da "Introdução"-
todas proveem de Marx (1982, p. 3-21).
Nota 9, página 37: Anos
depois, n'O capitai, ele
determinará o processo de trabalho
humano ("processo em que o ser humano, com sua própria ação impulsiona,
regula e controla seu intercâmbio material com a natureza") como sempre constituído por três
elementos: "a atividade adequada a um fim, isto é, o próprio trabalho; a
matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho; os meios de trabalho,
o instrumental de trabalho" (Marx, 1968, p. 202).
Nota 10, página 40: É o
caso, para ficarmos entre os "clássicos" das ciências sociais, de
Durkheim e Weber. Nas suas obras, encontram-se análises e proposições que
oferecem indicações pertinentes à compreensão da vida social; dadas, porém, as
suas concepções teóricas e metodológicas (conducentes a pensar as relações
sociais no marco de uma ciência particular e autônoma, a Sociologia, dela excluída
precisamente a questão da produção material, tomada objeto de outra disciplina
acadêmica, a Economia), eles - mesmo Weber, que, sabe-se, interessava‑se
por Economia - não foram capazes de elaborar uma teoria social apta a dar conta
da articulação entre relações sociais
e vida econômica. Para uma crítica de principio à Sociologia como
ciência particular e autônoma, cf. Lukács (1968, cap.VI). José Pauto Netto 41
Nota 11, página 44: "[...] Na análise das formas econômicas, não se pode utilizar
nem microscópio nem reagentes químicos. A capacidade de abstração substitui
esses meios" (Marx, 1968, p. 4).
Página notas de rodapé
Nota 12, página 45: A
análise cuidadosa dessas categorias encontra-se em Lukács (1970, cap. III e
1979, p. 77-171).
Nota 13, página 47: É
precisamente esta riqueza categorial
que não aparece nas exposições que geralmente pretendem divulgar "o método
de Marx" - seu conhecimento exige a leitura da obra do próprio Marx, em
especial O capital.
Nota 14, página 49: Eis por
que Lucien Goldmann qualifica o método de Marx como “genético-estratural” e
Gyöig Lukács designa-o como “histórico-sistemático".
Nota 15, página 53: E é
desnecessário dizer que esta reprodução
ideal, cuja validez a história real do capitalismo do último século e
meio vem reafirmando, na medida em que é necessária,
não é suficiente para dar conta
do capitalismo contemporâneo: novos fenômenos, sinalizando novos processos,
emergiram na dinâmica do capital, fenômenos e processos que Marx não examinou
(e nem poderia tê-lo feito). Mas é o método
por ele descoberto que tem possibilitado o tratamento crítico-analítico da
contemporaneidade, em autores tão diversos como Mandel, Mészáros, Harvey e
tantos outros.
Página notas de rodapé
Nota 16, página 58: O
marxista que melhor esclareceu a concepção de totalidade na obra marxiana foi
Lukács. Depois de criticar a concepção de totalidade tal como a pensa a
filosofia burguesa (bem como a sua adulteração pelo fascismo), ele escreve:
"A verdadeira totalidade, a totalidade do materialismo dialético, [...] é
uma unidade concreta de forças opostas em uma luta recíproca; isto significa
que, sem causalidade, nenhuma totalidade viva é possível e que, ademais, cada
totalidade é relativa; significa que, quer em face de um nível mais alto, quer
em face de um nível mais baixo, ela resulta de totalidades subordinadas e, por
seu turno, é função de uma totalidade e de tuna ordem superiores; segue-se,
pois, que esta função é igualmente relativa. Enfim, cada totalidade é relativa
e mutável, mesmo historicamente: ela pode esgotar-se e destruir-se - seu
caráter de totalidade subsiste apenas no marco de circunstâncias históricas
determinadas e concretas" (Lukács, 2007, p. 59). Mészáros observa que, com
esta concepção, extraída do pensamento de Marx, evita-se tanto o misticismo da
totalidade - tomada diretamente na sua imediaticidade, com a supressão das suas
mediações - que o fascismo cultivou, quanto o seu extremo oposto, vale dizer, a
sua negação, que leva à fragmentação e à psicologização da vida social (in Parkinson, org., 1973, p. 78 e
ss.).